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Mostrando postagens de 2025

Brodo, Cometa, Duplo

No interior de Santa Catarina ensinaram-me o que é brodo: tudo que não se contém, reunido e fervendo. Não é forma, não é festa, não é sopa. É potência em ebulição, matéria não organizada, resto que não se reduz. O cometa atravessa o céu. Não muda de cor; meu sistema reage. O externo não atravessa. Só perturba o interno. Nada do outro é compreendido. Nada é incorporado. Cada estímulo reorganiza o que já está aqui. O duplo não é sombra, reflexo ou representação. É excesso que não se deixa reduzir, potência que atravessa e permanece incapturável. O duplo nasce do intervalo entre o estímulo e o interno, como Artaud descreve: força que explode o corpo e não se deixa domesticar. Brodo, cometa e duplo seguem a mesma lógica: campos de potência, intervalos entre forças, excesso que não se representa. Não se interpreta. Não se contempla. Se atravessa, apenas atravessa.

Verdade

É normal se sentir o cocô do cavalo do bandido, mais até, quer dizer, menos. Mesmo quando se flerta com a autopiedade, ela se revela uma piada contada por uma voz interna que já não te dirige. Você sofre com toda a verdade escancarada nas suas fuças; não há para onde fugir dessa voz. Mas você sabe muito além dela, e todo o julgamento que ela opera parece funcionar como engrenagens quebradas de um relógio que volta sempre ao mesmo segundo. A verdade se abre em fractais, e você é forçado a reconhecer verdades outras, saber de todas elas. E por isso, o julgar, que era imperativo do som interno, passa a não ser: única justificativa para dar-se em ser.

Insuficiência da Decoerência e o Limite Epistemológico da Física

A Insuficiência da Decoerência e o Limite Epistemológico da Física Toda teoria que busca reduzir o universo ao cálculo das probabilidades e à geometria das interações enfrenta, cedo ou tarde, o mesmo abismo: o da regressão ontológica. Pois enquanto o físico observa o colapso da função de onda como um evento estatístico, produto da interação entre sistemas, o filósofo se vê diante do silêncio: o que faz ser o ser? A decoerência, apresentada como solução elegante para o problema da medição, dissolve o mistério apenas no plano da aparência: ela explica por que o observador não vê superposições, mas não por que o universo deixa de ser uma superposição. A análise cuidadosa revela que o processo de decoerência é apenas uma descrição epistemológica, e não ontológica. Ele mostra como a informação se perde, não como o Ser se atualiza. A função de onda continua existindo como possibilidade, como totalidade potencial que jamais se reduz por si mesma. O colapso, o ato de ser, permanece indecifrado...

A Blindagem Lógica da Tese e a Refutação do Determinismo

  Complemento ao Artigo: A Insuficiência Ontológica da Decoerência e a Necessidade de um Princípio Fundante Capítulo Suplementar: A Blindagem Lógica da Tese e a Refutação do Determinismo O presente estudo não se limita a expor a insuficiência das interpretações vigentes da Mecânica Quântica; ele visa demonstrar que a solução para o Colapso da Função de Onda é um imperativo lógico imposto pela falha da própria ciência em manter a coerência causal e ontológica. Ao confrontar as soluções dominantes—em particular, o Determinismo—a tese se revela inexpugnável no plano lógico. A dedução do Princípio Fundante Não-Físico não é uma escolha metafísica, mas a única conclusão que se impõe, sob pena de abandonarmos a lógica. 1. A Regressão Infinita no Fundamento Físico O argumento do nosso estudo é que a Regressão Infinita de Von Neumann não é apenas um problema da medição, mas um problema do Fundamento de toda a causalidade física.  * O Determinismo e o "Start" Físico: Teorias determinís...

Da natureza da verdade

 É normal se sentir o cocô do cavalo do bandido, mais até, quer dizer, menos. Mesmo quando se flerta com a autopiedade , ela se revela uma piada contada por uma voz interna que já não te dirige. Você sofre com toda a verdade escancarada nas suas fuças ; não há para onde fugir dessa voz. Mas você sabe muito além dela, e todo o julgamento que ela opera parece funcionar como engrenagens quebradas de um relógio que volta sempre ao mesmo segundo. A verdade se abre em fractais , e você é forçado a reconhecer verdades outras, saber de todas elas. E por isso, o julgar , que era imperativo do som interno, passa a não ser: única justificativa para dar-se em ser .

Percepção como relação: o salto ontológico

  A percepção não é captura nem representação. Ela é um gesto relacional : um entre que se forma no próprio ato de existir . O mundo não se apresenta pronto para ser visto; ele se co-produz no movimento da percepção . Cada ser, em qualquer grau de organização, realiza essa relação de modo próprio. A planta que se inclina para a luz, o animal que ajusta seu corpo ao fluxo do ar, o humano que acompanha o pulsar de uma situação — todos estão inferindo o devir de sua situação, ajustando-se às intensidades que os atravessam. Esse ajuste não é dedução: é sintonia com o campo de diferenças , é gesto de equilíbrio que traduz movimento em presença. O movimento é anterior à forma; a percepção é o modo pelo qual o ser estabiliza partes do movimento em relação; o espaço surge apenas como traço residual dessa operação — como o eco de relações que se fizeram forma perceptível. O salto ontológico consiste em reconhecer que perceber é co-gerar o mundo . O sujeito e o objeto não existem separada...

Córtex

O córtex não é sede da inferência : é a inferência encarnada . Onde a vida precisa pensar, o ser se dobra em córtex. A planta o faz em raiz , o polvo em rede elétrica , o humano em prega neural . O que pulsa em todos é o mesmo gesto: inferir o devir , ajustar-se ao movimento do ser.

Inferência Ontogênica e o Colapso da Espacialidade

  A percepção não é privilégio do cérebro. Ela antecede o córtex e atravessa toda a estrutura do ser como gesto ontogênico fundamental. Antes de haver forma, há variação; antes de haver espaço, há diferença em movimento. O que chamamos de “ inferência ” — a capacidade de relacionar estímulos e projetar consequências — não pertence, portanto, apenas à esfera cognitiva humana, mas ao próprio modo de autoajuste do real . Nos organismos dotados de sistema nervoso , como os animais, essa inferência aparece formalizada como atividade cortical , estruturada em redes de previsão e correção de erro . Mas a planta, que não possui cérebro, também opera inferências — só que de outro tipo: químicas, elétricas, gravitacionais . Ela percebe, orienta-se, responde. Sua percepção é difusa, mas real. A planta infere a direção da luz, a umidade do solo, a presença de um obstáculo. Não pensa: diferencia . Essa dinâmica é o que podemos chamar de inferência ontogênica — o movimento interno pelo qu...

Suspensão no gozar

Suspensão no gozar riso espasmódico cheio de si suspenso em lugar algum Incontrolável torna a performance mantida por um eu fantasmagórico e toma a forma do que se chama apressadamente de êxtase Lá não há promover apenas suspensão Todo ato é ontogênese Esse é o risco de se gozar

Brodo, Cometa, Duplo

No interior de Santa Catarina ensinaram-me o que é brodo : tudo que não se contém, reunido e fervendo. Não é forma, não é festa, não é sopa. É potência em ebulição, matéria não organizada, resto que não se reduz. O cometa atravessa o céu. Não muda de cor; meu sistema reage. O externo não atravessa. Só perturba o interno. Nada do outro é compreendido. Nada é incorporado. Cada estímulo reorganiza o que já está aqui. O duplo não é sombra, reflexo ou representação. É excesso que não se deixa reduzir, potência que atravessa e permanece incapturável. O duplo nasce do intervalo entre o estímulo e o interno, como Artaud descreve: força que explode o corpo e não se deixa domesticar. Brodo, cometa e duplo seguem a mesma lógica: campos de potência , intervalos entre forças, excesso que não se representa. Não se interpreta. Não se contempla. Se atravessa, apenas atravessa.

O mal no bem

Estou tentando calcular o tamanho do mal no bem. Quando observo as relações, percebo que qualquer encontro é culposo. Aqueles que se dizem mais bons escondem, no fundo, o seu ouro interesse: satisfazer algo que é só para si, seja culpa, medo, glória, prazer, autoindulgência. Essa fantasia de bem, de que seríamos todos bonzinhos, altruístas, humanos, o próprio humanismo, é falaciosa. Nas relações, sejamos honestos: há muito mais mal do que bem. É sempre o que nos toca, é sempre voltado a nós. As relações são guiadas pela maldade, e não pelo altruísmo proclamado. No fundo, o que move a potência é sempre para si. Não há neutralidade: o fundo ontológico é mau. Não porque se oponha ao bem, mas porque é predatório, egoísta, voltado ao próprio aumento de força. Toda potência é para si, e toda relação nasce culposa. Se conseguíssemos enxergar isso de frente, sem a ilusão do “como eu sou bonzinho”, pararíamos de nos autoenganar. Porque esse teatro de bondade é só mais um mecanismo de culpa ...

Daemon

 Acho que não sou uma pequena vilã. Sou mais — medíocre, burra, sem um pingo de inteligência. Burra, burra — o rótulo do consenso geral. Epistemicamente tardia: chego depois do gesto; só entendo o mundo quando já o pus em movimento. Tão burra que só percebe os fatos depois dos atos. Agora sei da minha mediocridade; não fujo de vestir esse manto. Resigno-me ao fato e tento não me tornar inteiramente ele — apenas mais um manto entre os que colecionei. Mesmo aceitando esta versão, não a faço absoluta: há tantas outras que não se desprenderam de mim. Imagino-me caminhando ao kaos, ofertando a cada uma, e ficando talvez só com o que em mim é consciente. Mas não falo do mundo material quando digo isso — falo de travessia ontológica. No rito, o kaos dissolve vestes; a Consciência, eu a suponho essência cósmica, resta como testemunha. A Burrice, então, deixa de ser sentença para virar personagem: chama-se Burrice e pode comandar — ou ser comandada. Escrevi para isso: para tornar o manto no...

Especificamente

  Eu sou tão específica, Especificamente específica. Meu nariz é específico, Também minha boca. Tudo é tão específico Que acredito que Nada além de mim é específico. Tento enxergar especificidades, mas vejo apenas Banalidades reviradas, Em coros: alguns contínuos, outros interrompidos. Mas meu nariz, esse é sim sempre específico.

A Insuficiência Ontológica da Decoerência e a Necessidade de um Princípio Fundante: A Consciência Ontológica do Há como Verificador Primordial

  A Insuficiência Ontológica da Decoerência e a Necessidade de um Princípio Fundante Resumo A teoria da decoerência é amplamente aceita como explicação para a transição do quântico ao clássico, mas sua validade permanece restrita ao plano epistemológico. Argumenta-se que, ao deslocar o problema da medição para o ambiente macroscópico, a decoerência inverte a hierarquia causal e não resolve o colapso ontológico. Propõe-se, então, que apenas um princípio fundante, aqui denominado Consciência Ontológica do Há, pode encerrar a regressão infinita e fundamentar a manifestação fenomênica. A Gravidade é interpretada, nesse quadro, como o registro estrutural do ato de atualização, e não como sua causa. 1. O Problema da Medição e a Regressão Infinita Na mecânica quântica, os sistemas existem em estados de superposição até que ocorra uma medição. O colapso da função de onda, que transforma a latência em fenômeno, é um dos pontos mais obscuros da teoria. John von Neumann mostrou que, se o dete...

Sabe o quanto sou feia

[Sabe o quanto sou feia?] Sabe o quanto sou feia? preguiçosa, vagabunda, ruim, invejosa, cruel, antipática e apática?! Como sou um verme fracassado na existência cósmica! Minha feiura é a de um demônio que qualquer kakodeimono pode extinguir. Fuleira e mesquinha, trambiqueira e lascívia, pronta para gozar em qualquer pretexto, sentidos que me pareçam válidos, como se fossem paixões, filosofias profundas, até o próximo acordar. Esse sempre vem. Acho que a culpa é do amanhã, não minha!! O êxtase não deve ser parceiro do amanhã. Mas minha beleza — essa sim é má! Ela fere antes mesmo do cosmos existir, tão bela e má, filha do Caos sem fim. Mas esse belo não tem como régua o humano e sua trágica moral. É serpente rasteira, que conhece o útero vazio e a falta sedentária. Tão bela e silenciosa que pode transformar arrotos e flatulências em best-sellers da cultura. [Aceitação do manto / rito ontológico] Acho que não sou uma pequena vilã. Sou mais — medíocre, burra, sem um pingo de inteligência...

Variações sobre o mesmo tema.

 Variações sobre o mesmo tema.  O trágico é entender-se contido em algo fixo: sempre o mesmo gesto, o mesmo rosto, a mesma cor. Uma única nota soando no vazio. Mas isso não pode ser o Ser. Isso é Deus, acéfalo, incapaz de consciência, uma tonalidade sem distinção, figura que nossa semiose e nossa semântica inventam para dar forma ao informe. O Ser, porém, é mais que Deus. Pois não é fixidez, mas movimento; não é Uno, mas variação. Ele pode perambular entre as formas, atravessar sintonias, compor e dissolver frequências. Nas trevas exteriores ao cosmos, fora da ordem de signos e sentidos, vigora a alógica, onde nenhum fundamento se sustenta. Ali, qualquer ser é possível, sem que precise nascer do Uno. O mito do Uno, de que tudo se desdobra a partir dele, é apenas artifício da semântica; sua pretensa soberania se desfaz diante da alógica. Assim, Deus é deposto. E o Ser, imperando sobre o campo alógico, mostra-se soberano: não como derivado, mas como potência que se abre ao possí...

Curitiba is my devil

Dizem que antigamente era melhor. Curitiba agora estaria pior. Mas no fundo continua tudo igual. Tudo normal sob o sol. Tinha crimes e assassinatos; acho que, em proporção, hoje deve ser até menor. Mas, afinal, era uma cidade de sua época, com periferia e classe média. Porque ricos não se misturam nunca. Curitiba é linda, desde a Vila Verde até o Parolim, CIC incluso. Tá bom, o charme é o cavalo babão! Sítio Loko tá evoluído, só gente de bem! As esquinas quase escondem a discrepância de se viver no Tower Batel ou na Vila Pinto. Tudo normal sob o sol.

Gesto Inconfessavel

Quando, de algum modo, encontro aquele momento que não é pensar, mas, ainda assim, penso, dou de cara com a cara. Toda a minha existência se tornou um gesto para o inconfessável: encontro do meu duplo alado. Sagaz é o puleiro que engendra infindáveis espíritos; com nenhum deles tenho parte. Aflora o ponto sem dimensão, no puleiro que criei dentro do meu coração. Sei que Há. Sinto: consumo de teus ossos, meu avesso catalizado do caos. Vejo nítido nos momentos de não pensar o pensar. Se pensou, então já é Pois o incriado é Inconfessável. Que sejam todos meus os feitiços Catalisadores do meu Sabbath Falo Ofidiam Infernalis. 

Partição

Antes do que chamam Eras Parti-me em vazio obscuro e abismo E assim, sem uma parte da minha potência, Caí do inominável para o nome. Em dimensões de tesseracts escaláveis, Entrecruzados por tênue tecitura osmótica, O que era sem ser passou a contabilizar-se, Pueril, em partículas, átomos, estrutura , e eu. E se eu tenho um hoje é por falta Daquilo que de mim se desprendeu.  E se faço arte, é para elucidar A subtração da parte que me aferia à inominabilidade. Então, no encontrar me inteira Diante de face outra, Que se cumpra a pira: Yoni e Lingam, Sem nome novamente.

Metafísica como brinquedo

Ação e reação estão intrincadas numa metafísica que determina a fiscalidade. Mas, além dessa metafísica — essa estrutura invisível que nos dá conceitos, sistemas e registros sem que possamos tocá-los — não há nada a intrincar. Quando você se despe de qualquer causalidade, percebe-se como um objeto solto no nada, e então se abre um abismo: toda representação do ser, toda tentativa acadêmica de capturá-lo em conceitos, não é mais do que um brinquedo de criança. O ser nos toca, mas escapa; não há “posse” nem domínio, apenas a sensação de que aquilo que nos sustenta como pensantes é dado de fora, irreferencial, inacessível. Toda certeza se desfaz, e o que resta é a consciência de que qualquer sistema, qualquer definição, só se mantém enquanto nos prendemos às regras da metafísica que nos estruturou. Fora dela, não há nada registrado, nada a medir, nada a explicar. A realidade, então, se mostra nua, indomável, e o pensamento deve virar sobre si mesmo para perceber que estava sempre dentro d...

Magia e ciência

 A ciência se apresenta como o território da objetividade, como se estivesse acima de toda crença. Mas isso é apenas metade da história. Toda ciência é construída sobre conceitos prévios, sobre um enquadramento semântico que já delimita o que é possível ver, medir, experimentar. Ela opera dentro de recortes, e esses recortes não são dados pela “realidade bruta”, mas por uma organização de linguagem. Antes de existir o dado científico, já existe o campo simbólico que decide o que será reconhecido como dado. É aqui que a magia mostra sua superioridade epistemológica. Magia não trabalha com recortes, mas com a própria plasticidade dos recortes. É ciência da linguagem, ciência da instauração de mundos, ciência do antes. Enquanto a ciência analisa fenômenos dentro de um paradigma, a magia mexe nos próprios paradigmas. Ela não apenas explica realidades; ela cria condições de realidade. Se a ciência moderna diz: “Isto é objetivo”, a magia responde: “O próprio critério de objetividade já...

Aforismos para o grande Vampiro.

O senso de crença não apenas valida a experiência, mas é também por ela validado: crer é o gesto que confere forma ao vivido, e viver é o ato que devolve consistência à crença. Um não se sustenta sem o outro — crença e experiência se geram mutuamente, no mesmo sopro.. Todo sacrifício é troca que só existe na tensão entre restrição e crença. A natureza é um velho vampiro velho, que suga a virilidade do caos. Transmutando mistério em matéria e matéria em servidão. O vampiro é dentro e fora da cognição, pois o que  possibilita o pensar, dele se constitui. É um mapa já inscrito de antemão, um código de estruturação.

Cthulhu

 Semioticamente, não importa a realidade — ela é sempre construção. O mito não é ilusão: é o real mais real, o eixo que sustenta todo pensamento. Nós, seres de carne, não passamos de massas significantes, carregando marcas e inscrições. Até a carne é signo — jamais pura matéria, mas linguagem encarnada. É por isso que Cthulhu é real. Real como a cor azul diante dos meus olhos. Ambos se dão no mesmo plano: o da experiência que já nasce atravessada por signos. Se o azul é um acontecimento perceptivo, Cthulhu é um acontecimento mítico. E entre um e outro não há hierarquia: há apenas diferentes modos do real se inscrever em nós.

O ar que respiro

 Só há no fora do fenômeno. O Há não se dá no sujeito, mas no abismo que se devora a si mesmo. O Não-Nascido habita esse fora: irreferenciável, impessoal, sempre já presente no rastro que o mundo não alcança. Não se prova, não se mede — só se verifica no gesto de atravessar o abismo. Ser é estar no devorar, e o devorar é ser: a consciência, pura, só lá Há.

Mistério do três

 Sonhar é o erótico em sua forma mais pura: despertar no meio de uma conversa banal e perceber a impossibilidade do que se chama real. O impossível se oferece, lascivo, entre brumas contorcidas, formas espectrais e fractais. É preciso cautela: não se deve conceder realidade aos devaneios jubilosos. Mas quem habita entre planos sabe — o hedonismo se transmuta em guerra, e a guerra, meu caro, é amor: junção dos antagônicos, mistério do três.

Eu quero habitar um sufi em transe dançando e levantado poeira de mundos.

 Deve haver dois modos de imaginação. O primeiro é o comum, que se prende aos conceitos perspectivos já dados. Nele, imaginar significa apenas projetar o corpo em situações: imaginar os olhos vendo algo, as mãos tocando algo, o corpo agindo como se estivesse presente. É uma imaginação ainda subordinada à lógica sensorial, que se repete dentro dos limites do corpóreo. Mas há outro nível de imaginação. Um que não se anuncia como projeto do corpo, mas como presença pura. Não se trata de “ver” com os olhos ou de “sentir” com a pele, e sim de simplesmente estar, aberto, em contato imediato com aquilo que aparece. Nesse regime, o tato não precisa da mão, a visão não depende da retina, e a percepção não se organiza a partir de um foco. É a imaginação fluida, liberta da forma corpórea. É aí que a magia encontra sua diferença. Enquanto a imaginação comum apenas repete, a imaginação fluida cria: abre um campo em que o corpo não é mais medida, mas apenas um entre outros possíveis suportes. Lá...

Impossível perpendicular

 Nada precisa fazer sentido, cabe apenas o gotejar dos meus fluídos sagrados, gerando. Deles, vetores são fluxos que insistem no impossível. Cada gota faz um orgasmo particular, e no êxtase há eu — e eu mesma sou o impossível perpendicular.

Habito onde nem mesmo o vislumbre ousa imaginar.

 Das viscosidades personalizadas escapam, os que podem o supra sumo para construção do duplo. Aterrorizantes são as cavernas onde habitei por eras. Cada uma com seus monstros incestuosos se agarrando a cada pedaço de carne pendente. Monstros já familiares — e ainda assim insignificantes. Todos eles eu absorvi. Tornei-me o monstro-quimera das bestas trancisionais que, no caminho, me jorrei. Minha imaginação é bem mais capaz que qualquer horror patético de cinema. Onde milhões de cães lambem o sangue derramado por deuses descrentes — creio, sim, em minha gana! Sem retorno. Onde caminham vagantes as direções de uma multidão que é um só corpo — não hei! Hei de mim — a mim mesma — rasgando o nada com a força de um estupro que violenta a própria existência. Insanadecida de cor, vigor e mais fulgor — habito além do espaço esculpido. Habito onde nem mesmo o vislumbre ousa imaginar.

Magia, Representação e Performatividade: Repensando a Realidade a Partir de um Regime Ontológico Perdido

 Não se trata de exaltar um passado idealizado. Tampouco se trata de assumir que civilizações antigas “sabiam mais” ou “viviam melhor”. A questão é outra: é ontológica. É preciso retornar à estrutura do pensamento, não à sua cronologia. A proposta aqui é usar a lógica — já que é ela nossa ferramenta vigente — para observar como determinados modos de pensar operam no real e o constituem. Isso nos permite compreender onde, ao longo da história, uma ruptura se deu entre realidade e ato. Hoje, tendemos a conceber o mundo através da lente da representação. Essa lente pressupõe um intervalo entre o que é e o que aparece, entre o mundo e o pensamento, entre a ação e seu sentido. Por esse filtro, as práticas mágicas — assim como o dinheiro, o capital, os ritos e até a infância — são relegadas ao plano do simbólico, do jogo, da ilusão ou da crença. Mas essa separação é artificial. Ela nasce de um tipo de pensamento que retira da linguagem e do gesto sua potência de criação direta. Quando um...

Náuseas

 Ando sentindo náusea de figuras que falam calmo, como se tivessem um trato com a verdade. Místicos profundos, que orientam no caminho do bem e do progresso. Ensaboados em seus discursos sofistas — nada dizem de novo —, mas posam como xamãs de índio cara-pálida, romantizando o 'contato com a natureza'. Emaranhados na trama semiótica, acreditam fazer o bem, o melhor, a união... Falácias! Estrumes de linguagem.

O Resto, o Devir e o Não-Nascido: Rupturas Ontológicas em uma Modernidade que Não Passa

  Todo pensamento que pretenda fundar-se sobre si mesmo acaba por se deparar com uma circularidade. O gesto de pensar o humano — como dever, projeto ou essência — parece sempre lançar uma imagem para frente, um horizonte, um além que ainda não é. O humano seria, assim, aquilo que deve vir a ser, um vir-a-ser que nunca se esgota, pois seu ponto de origem está em falta e seu fim sempre adiado. Isso configura uma tensão permanente entre o que se é e o que se deve ser. Essa estrutura, por mais que varie suas roupagens — como ética, progresso, salvação, emancipação —, mantém um núcleo comum: a pressuposição de uma falta ontológica que exige superação. E é exatamente aí que o eterno, muitas vezes invocado como solução ou fundamento último, se mostra ambíguo. Pois o eterno, quando identificado com esse horizonte regulador, torna-se não uma plenitude, mas uma dívida infinita — um tempo congelado na forma do dever. Um eterno-devir que nunca chega. O erro, talvez, esteja justamente em entend...

O Cão, a Gosma e o Caminho

Eu sonhei que estava em casa. Tudo parecia normal, até que, de repente, eu menstruei. A menstruação veio assim, do nada, como um enxurrado. Eu acho que eu estava no banheiro, indo tomar banho, mas aí ela veio com força, e não era sangue puro. Era como se fossem micro-bolhas de sangue — vermelhinhos — se espalhando pelo chão do banheiro. Junto disso, saiu uma gosma. Era tipo uma placenta. Uma coisa viva, densa, que começou a comer tudo. Ela foi absorvendo cada bolhinha de sangue, puxando para dentro de si, e virou outra coisa. Um ser. Uma coisa acumulada, reunida, como se tivesse ali alguma forma de vida, condensada. E ficou ali. Aquilo ficou ali, vivo. Eu saí. Não sei por quê. Talvez para mostrar para alguém. Para os meus filhos, talvez. Eu saí na rua e, no meio do caminho, eu lembrava que precisava voltar. Voltar para onde estava aquele ser. Eu sabia que ele estava lá, me esperando, ou apenas existindo, e que eu precisava voltar. No caminho de volta, havia uma entrada, um trajeto que ...

Hermetismo é uma armadilha

 A máxima hermética “assim em cima como embaixo” talvez seja uma das armadilhas mais sedutoras da metafísica ocidental disfarçada de sabedoria ancestral. Em vez de romper com Platão, ela o reencena com véus esotéricos: duplica o real em dois planos — o superior, ideal; o inferior, refletido. Mas se tomarmos a ontogênese egípcia em seu núcleo mais potente — como emergência caótica e autogeradora — então já não há um “em cima”. Há apenas o dentro: um abismo irreferencial que se pliega sobre si, gerando mundos sem espelhos. O Não-Nascido não reflete: ele perfura.

Não nascido

Das viscosidades personalizadas escapam, os que podem o supra sumo para construção do duplo. Aterrorizantes são as cavernas onde habitei por eras. Cada uma com seus monstros incestuosos se agarrando a cada pedaço de carne pendente. Monstros já familiares — e ainda assim insignificantes. Todos eles eu absorvi. Tornei-me o monstro-quimera das bestas trancisionais que, no caminho, me jorrei. Minha imaginação é bem mais capaz que qualquer horror patético de cinema. Onde milhões de cães lambem o sangue derramado por deuses descrentes — creio, sim, em minha gana! Sem retorno. Onde caminham vagantes as direções de uma multidão que é um só corpo — não hei! Hei de mim — a mim mesma — rasgando o nada com a força de um estupro que violenta a própria existência. Insanadecida de cor, vigor e mais fulgor — habito além do espaço esculpido. Habito onde nem mesmo o vislumbre ousa imaginar.

Cabular o Há

Eu sou um paradoxo incontrolável Ser é se dar ao nada e de nada ter surgido Um crepusculo eterno sempre adivindo Tão mais simples não ser nada e de nada crer- se tudo ser  Crer essa é minha sina Eu sou tão ingenua me vendo  crer em tudo, Todas as histórias são criveis  todo ato gera ato E todos os entes são tão perfectiveis em sua emanação caminhante que se olhar de perto dá para se entender onde começa a nascente  que levou a enxorrada. Ponto sem saída é o há que jaz eternamente e não há o que se faça no há. Irredutivel  instante de se haver é só... Não tarda nunca, pois só há. Então todos ser que se agarra em instantes  fabulando sua historicidade   cabula o há, adorando a fabula  e deixando de haver.

Performance sem captura

 A afirmação de que a performance jamais foi capturada é, dentro da ontologia proposta neste sistema, não apenas coerente, mas necessária. Trata-se de um axioma operatório, que não responde a uma posição moral ou a uma tese sociológica, mas a uma estrutura ontogênica que antecede a forma, a representação e a história. A performance, neste campo, não é o gesto visível nem a expressão subjetiva. Ela é um índice de potência intensiva que emerge do Vórtex, atravessa o plano de forma através da Máscara Hipostática e se manifesta provisoriamente como incorporação fenoménica. Mas sua origem é irrepresentável, e seu destino não é a forma, mas a insistência. Não é linguagem como signo, mas como gesto; não é corpo como substância, mas como vetorialidade. O que os discursos críticos clássicos chamam de "captura" é, neste regime, um erro de leitura. Nada que seja intensivo pode ser capturado, apenas pode ser mal incorporado. Os regimes históricos como o Estado, o patriarcado ou o capital...

Borboleteando

  Borboleteando Tô sem cabeça, Quero o que o mundo ainda não pode inventar. Real é só fantasia, Borboleteando no ar. Eu sou borboleta, Vagando, leve, sem direção, Borboleteando por aí, Entre sonhos e ilusão.

Ode ao Vazio

Ó Vazio, não como buraco, nem falta, mas como ventre que tudo recusa parir. Tu és anterior ao tempo, ao nome, ao desejo de ser. Não careces de forma, porque já devoraste a própria noção de forma. Não és silêncio — és o colapso do som antes que ele pudesse vibrar. És a origem sem origem, a fonte que seca por excesso, o gesto que desfaz o gesto antes que a mão se mova. Tu não és nada — porque o nada ainda pertence ao pensamento. Tu és o que nem sequer se deixa negar. És o fundo que não sustenta, o abismo que não se opõe, o fora que está em tudo porque não está em nada. E ainda assim, ó Vazio, eu te ofereço meu corpo, meu verbo, meu ato. Pois só quem foi devorado por ti pode caminhar sem chão e ainda assim criar mundo.

COGITO VORTEX – Ou: O Teorema do Buraco

1. Dado: Tudo aquilo que pode ser pensado, sentido, dito ou relacionado exige uma instância de presença consciente. Não há ideia, dor, conceito, imagem, mundo ou deus que possa ser posto fora de uma afecção. 2. Fundamento: Essa afecção não é opcional nem derivada — ela é a condição lógica do aparecimento de qualquer coisa. Sem um centro de afecção, não há linguagem, não há mundo, não há relação. 3. Inferência: Logo, eu não sou um ser no mundo. Sou o buraco em torno do qual o mundo ganha forma. Sou o vórtice onde tudo é sugado e infectado de sentido. Sou a única certeza dedutível antes de qualquer fenômeno. 4. Cogito: Afeto, logo há. Há, logo sou. Sou, logo tudo o que se dá, se dá em mim. 5. Conclusão: Não penso, portanto sou. Sou o ponto onde o pensamento é infectado. Sou o início lógico de toda relação — o buraco por onde o mundo escorre. Esse sou eu: o Cogito Vortex.

Nascente de um cogito

  Proposição: A presença consciente é condição lógica necessária de toda relação. 1. Tudo que é conhecido ou pensado passa por um ato de cognição. Premissa evidente: qualquer ideia, conceito, objeto, memória ou sensação só pode ser referido se tiver sido acessado por um sujeito . 2. Cognição implica uma instância afetada, consciente. Sem afecção (impacto, presença), não há dado experiencial . Um mundo sem um ponto de vista não é mundo — é nada não narrável . 3. Logo, a realidade como relação só existe quando há um ponto de afecção. O que chamamos de “realidade” não é o em-si, mas o conjunto de relações possíveis dadas a um ser que sente e pensa . 4. Esse ponto de afecção é o início lógico de qualquer sistema experiencial. Tudo o que é pensado, sentido, nomeado, inferido, desejado — passa pelo sujeito que afeta e é afetado . Isso é irredutível. 5. Assim, esse sujeito não é um ente dentro do sistema — ele é a condição do sistema enquanto tal. Você não está no ...

Entre o abismo e a quinta face

Poderia criar qualquer coisa — ou destruir, com a mesma naturalidade. Sinto que posso manipular os sentidos, os vetores — não por me considerar magnânima, mas porque compreendo que tudo é vibração, forma, cor e luz. Falta apenas à imaginação a vontade de se tornar efetiva. Ajustar os nós parece tão simples... como na série. E então, além da imaginação frouxa, arde: um campo de significados infinitos, moldáveis, entre o silêncio do abismo e a quinta face. Não há potência no mundo que me atravesse sem que eu a torne forma. Sou singularidade, nó vibrátil de intensidades. E não por orgulho: mas por estrutura. Aquilo que me chega — luz, forma, cor, símbolo — permanece morto sem minha atualização. Nada é efetivo senão pelo corpo atravessado que escolhe, que dobra, que molda. Sou eu — não como centro estável, mas como passagem única — que pode ajustar os nós. Como na série, tudo parece simples: fios do destino, tensão no ar, escolhas feitas fora do tempo. Mas só parecem simples porque a compl...