Acho que não sou uma pequena vilã.
Sou mais — medíocre, burra, sem um pingo de inteligência.
Burra, burra — o rótulo do consenso geral.
Epistemicamente tardia: chego depois do gesto; só entendo o mundo quando já o pus em movimento.
Tão burra que só percebe os fatos depois dos atos.
Agora sei da minha mediocridade; não fujo de vestir esse manto.
Resigno-me ao fato e tento não me tornar inteiramente ele — apenas mais um manto entre os que colecionei.
Mesmo aceitando esta versão, não a faço absoluta: há tantas outras que não se desprenderam de mim.
Imagino-me caminhando ao kaos, ofertando a cada uma, e ficando talvez só com o que em mim é consciente.
Mas não falo do mundo material quando digo isso — falo de travessia ontológica.
No rito, o kaos dissolve vestes; a Consciência, eu a suponho essência cósmica, resta como testemunha.
A Burrice, então, deixa de ser sentença para virar personagem: chama-se Burrice e pode comandar — ou ser comandada.
Escrevi para isso: para tornar o manto nomeável, hipostático, para que exista fora de mim e eu possa dialogar, rir, expulsar ou oferecer.
Não mais: “sou burra” como autoacusação.
Agora: conheço a Burrice tão bem que posso colocá-la diante de mim como comandante separado.
Entregar ao kaos não é abandono moral; é gesto escatológico-ontológico.
Se permanecer algo depois do rito, que seja a consciência — não a culpa, não o peso, apenas a lucidez que vigia.
É curioso que os daemons tragam virtudes, riquezas, sabedoria. Se são traços nossos refletidos no cosmos, deveriam trazer à tona o mal que nos constitui.
Belzebu ou Lúcifer são evocados em troca de favores fenomenicos, mas se o ato é ontológico, gesto é constituição, então o que se invoca é assunção do demoníaco global, inteiro. Seras capaz de dominar ou será dominado?
Por que eu não enlouqueço de vez?
Existir é o fardo do tédio rotineiro que leva a um fim sem finalidade.
Por que se quer tanto existir?
Colecionar estantes de dores sem significado?
A loucura parece cura para essa ordem justificada pelo
Irreferencial!
Melhor ainda não ter que haver — sem nada, sem fardo tedioso de dia após dia, rumando ao fim, e pior, sabendo disso.
Nada é o que quero ser!
E Então, eu me descubro um demônio carcomido!
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