A ciência se apresenta como o território da objetividade, como se estivesse acima de toda crença. Mas isso é apenas metade da história. Toda ciência é construída sobre conceitos prévios, sobre um enquadramento semântico que já delimita o que é possível ver, medir, experimentar. Ela opera dentro de recortes, e esses recortes não são dados pela “realidade bruta”, mas por uma organização de linguagem. Antes de existir o dado científico, já existe o campo simbólico que decide o que será reconhecido como dado.
É aqui que a magia mostra sua superioridade epistemológica. Magia não trabalha com recortes, mas com a própria plasticidade dos recortes. É ciência da linguagem, ciência da instauração de mundos, ciência do antes. Enquanto a ciência analisa fenômenos dentro de um paradigma, a magia mexe nos próprios paradigmas. Ela não apenas explica realidades; ela cria condições de realidade.
Se a ciência moderna diz: “Isto é objetivo”, a magia responde: “O próprio critério de objetividade já foi instaurado por uma decisão semântica anterior.” A magia opera nesse ponto anterior, modulando sentidos, articulando símbolos, mexendo no alicerce mesmo do que pode ou não ser considerado real.
Por isso, ela é mais científica que a ciência. Porque ela não finge neutralidade. A ciência ainda acredita em sua própria narrativa de pureza metodológica; a magia sabe que todo gesto cognitivo é performativo. A ciência opera como se não estivesse criando o mundo, apenas descrevendo. A magia assume a criação. E assumir é mais honesto, mais rigoroso, mais adulto.
Em termos práticos: a ciência não existe sem a magia que a precede. Não haveria física sem conceitos de espaço e tempo; não haveria biologia sem categorias de vida e organismo. Todos esses conceitos são invenções linguísticas, instauradas antes da prova empírica. Esse é o terreno da metamagia. A ciência é dependente da magia sem sequer reconhecer.
O que chamo de magia, portanto, não é superstição. É a compreensão de que o real se dá na e pela palavra, na e pela configuração de símbolos, nos índices performativos que moldam a experiência. É meta-ciência porque trabalha onde a ciência não alcança: no gesto inicial de criação de sentido.
A ciência se limita a operar dentro dos mundos já abertos. A magia abre mundos.
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