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Caravana

Segue a caravana há em meus camelos um trilhão de juízes. O quanto a sina faz a ferra  em cada pensamento meu? E de cada juiz algoz me fiz cumplice Anátema são para isso, sacrifício! Em todo herói há um patético não contado, Os cães ladram e a caravana passa.
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Da Incompletude da Representação e dos Limites do Conhecimento Formal

  Da Incompletude da Representação e dos Limites do Conhecimento Formal O problema não está em afirmar que a matemática é incapaz de conhecer. Ao contrário: precisamente porque a matemática conhece com rigor, seus próprios limites tornam-se filosoficamente significativos. Os teoremas da incompletude de Kurt Gödel pertencem, em sua demonstração imediata, ao domínio da lógica matemática. Eles dizem respeito a sistemas formais suficientemente expressivos, consistentes e capazes de representar determinada aritmética. Sob essas condições, existem proposições que não podem ser demonstradas dentro do próprio sistema. A consequência rigorosa não é que “tudo seja incognoscível”, nem que a realidade seja necessariamente incompleta. A consequência é mais precisa e, por isso mesmo, mais profunda: um sistema de representação não coincide necessariamente com a totalidade das verdades que podem ser formuladas a respeito do domínio que ele representa. Essa distinção tem alcance epistemológico. ...

Quem te

 No próprio calor Onde pousam Espirais fantasmagóricas, Dentes de leão, O olho do furacão. Espira, murcha, morta Morteja e sangra Inventa novas veias Vivo na morte Até chegar a marginal E de um salto transcendental De espiral a espiral.

Não sou de onde

Sorria enquanto te enterram todos se lamentam por sua partida. Então sorria, este é só um tempo. Caminhando no deserto, boca seca, narina ardendo, retina, imensidão irradiante. Só mais um passo, mais um... Cai e rola em labaredas arenosas, lambidas ásperas de fogo sem fumaça. Há aquilo que sente e o que é sentido e há aquilo que não faz parte disso. Eu sou o contido no orgasmo de toda e qualquer manifestação, Sou toda vacância, todo preenchimento, todo vácuo, todo ente. Eu sou rasteira, piciforme, gorgonoide, Sou sem paz, sem termo e avessa às leis! Não sou de onde.

Cavalos desejantes

 Meu ofício é adjetivação sobre a ontogênese sintática e semântica dos substantivos categóricos. Montado num lindo cavalo de fogo sintático, o fogo semântico consome a pira: Kant imperativo, Descartes subjetivante, na linhagem de Platão. Nela me ponho, mas adjetivando a geometria em textura e trazendo ao verbo o que não se define. Corpos desejantes são semânticas muito mais bonitas.

Impostura

A frente de magnifica figura impostando um cetro masoquista acordei do sono  E entendi o cetro  e como se esquiva de sua impostura. Meu corpo despiu - se de mim e senti me Magnifica Figura.

O Probabilizante

O Probabilizante A probabilizabilidade nomeia o não fechamento: nenhuma atualização esgota o que pode ocorrer. O probabilizante é sua direção temporal. O passado persiste como marca no que ainda virá, enquanto o futuro, não como fato pronto, mas como abertura, tensiona o presente em sentido anticontrário à causalidade. O presente não é apenas empurrado pelo que foi. Também é inclinado pelo que ainda não se fechou. O Índice Performativo atualiza. O Não-Nascido impede que a atualização seja a última.

A probabilidade como assinatura modal do Não-Nascido

  A probabilidade como assinatura modal do Não-Nascido A probabilidade talvez não seja uma propriedade do meio físico, nem apenas uma medida da ignorância de um observador. Dentro da Filosofia do Irredutível, não há um domínio físico ontologicamente autônomo, separado da Consciência Irredutível. O físico já é fenômeno: determinação atualizada no interior da Consciência. Por isso, falar de uma realidade que operaria absolutamente “sem consciência” seria cometer um erro de nível. Não se trata da consciência psicológica, individual ou humana, mas da condição ontológica pela qual algo pode ocorrer, aparecer e ser determinado. A hipótese é que a probabilidade seja intrínseca ao modo de operação da Consciência. Não como uma qualidade acrescentada a ela, mas como consequência de sua própria estrutura de determinação. No Vórtex, há diferença intensiva, tensão e variação, mas ainda não há forma plenamente determinada. O Índice Performativo realiza o recorte pelo qual algo se atualiza com...

Do Regime Diferencial ao Fenômeno

  A Consciência Irredutível não designa uma consciência universal, uma mente cósmica ou um sujeito anterior ao mundo. Ela nomeia apenas a incidência mínima pela qual uma ocorrência comparece como diferença efetiva. Não pensa, não observa, não representa e não possui interioridade. É o grau mínimo de não-indiferença implicado no próprio ocorrer. Se há diferença efetiva, não há apenas termos abstratamente distintos. Há um regime no qual a diferença incide. Chamamos regime diferencial mínimo à estrutura mais elementar dessa incidência. O termo “regime” não designa um lugar, uma substância ou uma região física invisível. Indica somente que a diferença efetiva não acontece no vazio lógico: ela estabelece uma configuração mínima de variação, tensão e determinação. Esse regime diferencial recebe, neste sistema, o nome de Vórtex . O Vórtex, em sua definição mínima, não é ainda um mundo, um fenômeno ou uma coleção de formas. Também não é uma entidade que, situada em outro plano, provoq...

Da incidência à Consciência Irredutível

  Da incidência à Consciência Irredutível Poder-se-ia objetar que esta demonstração estabelece apenas uma condição necessária para afirmar que há ocorrência, sem alcançar uma verdade ontológica independente do próprio ato de afirmar. Segundo essa objeção, a impossibilidade de negar coerentemente a ocorrência provaria apenas algo sobre o discurso: para falar, negar ou duvidar, precisamos pressupor que algo ocorre. Isso não demonstraria que o real, considerado independentemente de qualquer afirmação, possua essa mesma estrutura. Essa objeção, porém, pressupõe uma separação que aqui não pode ser mantida. Ela trata a afirmação como se fosse apenas uma representação do ocorrer, situada diante de um real exterior e independente dela. Mas afirmar, negar, duvidar ou suspender o juízo não são atos exteriores à ocorrência. São ocorrências efetivas. A demonstração, portanto, não parte de uma condição do discurso para inferir uma realidade escondida atrás dele. Ela parte do fato de que o pr...

FILOSOFIA DO IRREDUTÍVEL

FILOSOFIA DO IRREDUTÍVEL 1. Premissa incontornável Há ocorrência. A negação dessa premissa já ocorre. A dúvida, a suspensão, a recusa e qualquer formulação de “não há” são ocorrências. Portanto, a ocorrência não pode ser retirada pelo ato que tenta negá-la. Ela é performativamente irredutível. 2. Distinção mínima e diferença efetiva Se há ocorrência, ocorrência e não ocorrência não são idênticas. Essa é a distinção mínima. Ela não exige multiplicidade interna ao Há; significa apenas que ocorrer não é o mesmo que não ter ocorrido. Se essa distinção é efetiva, há diferença em ato. Uma diferença que não fizesse diferença alguma seria indistinguível da ausência de diferença. Por isso, ocorrência implica incidência e não-indiferença mínimas. “Consciência Irredutível” é o nome técnico dessa não-indiferença mínima do haver à própria incidência. Não é sujeito, mente, observador nem entidade exterior. O nome pode ser recusado; a função não pode ser retirada sem retirar a diferença efetiva já ad...

Nome do pai

Eu, um amontoado de percepções moldadas em eras, mesmo a carne que sinto arder nem é minha nem existe. O nome do pai subjaz em mim, cova profunda, mas só via o vermelho e o branco gorduroso do que ainda não tinha conhecido. O conhecimento se faz antes do amontoado, antes, o verbo do pai, bem antes das percepções. É delas seu engendrador, e, se nelas estiver contido como vaso que se enche de orgias fantasmagóricas, não podes reivindicar existência. O que oscila como pêndulo entre o tudo e o nada não pode nunca conhecer o vazio. E como se daria existir, se se opta entre o bem e o mal? O que há precisa de temperança para se afirmar? Poder-se-ia dizer que sim, olhando a própria carne vermelha e o branco gorduroso das vossas vísceras, pois, afinal, o que te constitui depende de tudo mais que percebes. Mas olha aí: se tiras tudo de que dependes, o que é ser tu? Esse é o fato e o pacto contra o nome do pai! Ora, para que não seja: esse é o haver. Devora o pai em tua carne vermelha e gordurosa...

Flamígera

Se quisesse me comer a carne até os ossos, E visse que isso não sacia sua fúria E sempre implorasse Por mais E mais... Se vestisse minha pele E visse além dos seus desejos Mais um amontoado de prazer sedento por satisfação E sua carne se transformasse então em combustão Única saída de dois Fogo, flamígera Dança, lampejos Sem mais Desejos Apenas combustão Queima nosso ventre no Irredutível E vai e volta Nas eras vagas de nossa frágil memória Agindo no sempre Lambendo o futuro Rasgando o passado.

Do habitar

faça-se do próprio símbolo linguagem faça-se praga para saciar sua voragem Habite para que não haja mais nenhum habitante Isso não é metáfora, é criar geometria até o ponto em que sature tudo mais.

Tango

Fora do tempo, E ele começa a bailar, para mim, Dois para frente e dois para trás Meia volta no mesmo lugar, As datas materialmente sincronizadas para que meu haver irrompa, E sou afinal o compasso que orquestra onde o tempo deve dar.

Descampo

Sátiros zombam junto ao meu túmulo eis-me ali a zombar também que meu que nada que meu é amplo que meu é pouco para perto do descampo

Carnear

O pecado não é apenas a concupiscência, a vaidade e o orgulho — todos são meros adjetivos para a falta. A falta é apregoada nos clamores em transe ou nas mais profundas elucubrações sobre o que quer que seja. Súplicas sempre vão dar em um estado que não convirja com o agora. Seja na obstinação dos shakers ou no domínio dos revezes com os quatro verbos do mago, a falta é o pecado. Ela é que te mantém submisso a um tribunal de suficiência inatingível, você — podre moral, mortal. Tua insuficiência provém do teu estado de morte, morte em vida, morte em cada suspiro, a cada célula que te abandona. Veja que, se assim for, sua própria constituição é o pecado. O conceito foi gerado do que se faz a cada instante encarnado. Não há referência para a carne a não ser haver-se enquanto carne — carnear, esse é o estado do pecado. Quer se libertar? Oh, saco de entranhas entrelaçadas, como se libertar da própria constituição? Antes de haver o logos há a carne. Esse é o Deus do Pecado, e é seu Deus prim...

Todo dia

Hoje há uma coisa, coisa, pois não consigo descrever. Há uma presença, um algo etéreamente concreto se espalhando e movimentando motores, gerando colapsos e prazeres. Perceba: há, no haver, algo que quase nunca se dispõe, mas que sempre se compoem, como isso, rima facil. Isso ronda agora, sem chegar, sem sair. Há clamores, o verbo que constrói verdades! Há silencio, o verbo que  diz assim seja! Há tudo isso, e eu pequena no meu avesso  vejo os sonhos nitidos dos que se dizem eu! Não se anuncia, não se impõe, apenas insiste. E nessa ronda há, no haver, o que não se dispõe. Nessas horas, dessas décadas a cravar, a gente mesmo se atualiza, mas a ronda é feroz — tacanhos algozes. Quem tem olho para ver?