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Mostrando postagens de setembro, 2025

O mal no bem

Estou tentando calcular o tamanho do mal no bem. Quando observo as relações, percebo que qualquer encontro é culposo. Aqueles que se dizem mais bons escondem, no fundo, o seu ouro interesse: satisfazer algo que é só para si, seja culpa, medo, glória, prazer, autoindulgência. Essa fantasia de bem, de que seríamos todos bonzinhos, altruístas, humanos, o próprio humanismo, é falaciosa. Nas relações, sejamos honestos: há muito mais mal do que bem. É sempre o que nos toca, é sempre voltado a nós. As relações são guiadas pela maldade, e não pelo altruísmo proclamado. No fundo, o que move a potência é sempre para si. Não há neutralidade: o fundo ontológico é mau. Não porque se oponha ao bem, mas porque é predatório, egoísta, voltado ao próprio aumento de força. Toda potência é para si, e toda relação nasce culposa. Se conseguíssemos enxergar isso de frente, sem a ilusão do “como eu sou bonzinho”, pararíamos de nos autoenganar. Porque esse teatro de bondade é só mais um mecanismo de culpa ...

Daemon

 Acho que não sou uma pequena vilã. Sou mais — medíocre, burra, sem um pingo de inteligência. Burra, burra — o rótulo do consenso geral. Epistemicamente tardia: chego depois do gesto; só entendo o mundo quando já o pus em movimento. Tão burra que só percebe os fatos depois dos atos. Agora sei da minha mediocridade; não fujo de vestir esse manto. Resigno-me ao fato e tento não me tornar inteiramente ele — apenas mais um manto entre os que colecionei. Mesmo aceitando esta versão, não a faço absoluta: há tantas outras que não se desprenderam de mim. Imagino-me caminhando ao kaos, ofertando a cada uma, e ficando talvez só com o que em mim é consciente. Mas não falo do mundo material quando digo isso — falo de travessia ontológica. No rito, o kaos dissolve vestes; a Consciência, eu a suponho essência cósmica, resta como testemunha. A Burrice, então, deixa de ser sentença para virar personagem: chama-se Burrice e pode comandar — ou ser comandada. Escrevi para isso: para tornar o manto no...

Especificamente

  Eu sou tão específica, Especificamente específica. Meu nariz é específico, Também minha boca. Tudo é tão específico Que acredito que Nada além de mim é específico. Tento enxergar especificidades, mas vejo apenas Banalidades reviradas, Em coros: alguns contínuos, outros interrompidos. Mas meu nariz, esse é sim sempre específico.

A Insuficiência Ontológica da Decoerência e a Necessidade de um Princípio Fundante: A Consciência Ontológica do Há como Verificador Primordial

  A Insuficiência Ontológica da Decoerência e a Necessidade de um Princípio Fundante Resumo A teoria da decoerência é amplamente aceita como explicação para a transição do quântico ao clássico, mas sua validade permanece restrita ao plano epistemológico. Argumenta-se que, ao deslocar o problema da medição para o ambiente macroscópico, a decoerência inverte a hierarquia causal e não resolve o colapso ontológico. Propõe-se, então, que apenas um princípio fundante, aqui denominado Consciência Ontológica do Há, pode encerrar a regressão infinita e fundamentar a manifestação fenomênica. A Gravidade é interpretada, nesse quadro, como o registro estrutural do ato de atualização, e não como sua causa. 1. O Problema da Medição e a Regressão Infinita Na mecânica quântica, os sistemas existem em estados de superposição até que ocorra uma medição. O colapso da função de onda, que transforma a latência em fenômeno, é um dos pontos mais obscuros da teoria. John von Neumann mostrou que, se o dete...

Sabe o quanto sou feia

[Sabe o quanto sou feia?] Sabe o quanto sou feia? preguiçosa, vagabunda, ruim, invejosa, cruel, antipática e apática?! Como sou um verme fracassado na existência cósmica! Minha feiura é a de um demônio que qualquer kakodeimono pode extinguir. Fuleira e mesquinha, trambiqueira e lascívia, pronta para gozar em qualquer pretexto, sentidos que me pareçam válidos, como se fossem paixões, filosofias profundas, até o próximo acordar. Esse sempre vem. Acho que a culpa é do amanhã, não minha!! O êxtase não deve ser parceiro do amanhã. Mas minha beleza — essa sim é má! Ela fere antes mesmo do cosmos existir, tão bela e má, filha do Caos sem fim. Mas esse belo não tem como régua o humano e sua trágica moral. É serpente rasteira, que conhece o útero vazio e a falta sedentária. Tão bela e silenciosa que pode transformar arrotos e flatulências em best-sellers da cultura. [Aceitação do manto / rito ontológico] Acho que não sou uma pequena vilã. Sou mais — medíocre, burra, sem um pingo de inteligência...

Variações sobre o mesmo tema.

 Variações sobre o mesmo tema.  O trágico é entender-se contido em algo fixo: sempre o mesmo gesto, o mesmo rosto, a mesma cor. Uma única nota soando no vazio. Mas isso não pode ser o Ser. Isso é Deus, acéfalo, incapaz de consciência, uma tonalidade sem distinção, figura que nossa semiose e nossa semântica inventam para dar forma ao informe. O Ser, porém, é mais que Deus. Pois não é fixidez, mas movimento; não é Uno, mas variação. Ele pode perambular entre as formas, atravessar sintonias, compor e dissolver frequências. Nas trevas exteriores ao cosmos, fora da ordem de signos e sentidos, vigora a alógica, onde nenhum fundamento se sustenta. Ali, qualquer ser é possível, sem que precise nascer do Uno. O mito do Uno, de que tudo se desdobra a partir dele, é apenas artifício da semântica; sua pretensa soberania se desfaz diante da alógica. Assim, Deus é deposto. E o Ser, imperando sobre o campo alógico, mostra-se soberano: não como derivado, mas como potência que se abre ao possí...

Curitiba is my devil

Dizem que antigamente era melhor. Curitiba agora estaria pior. Mas no fundo continua tudo igual. Tudo normal sob o sol. Tinha crimes e assassinatos; acho que, em proporção, hoje deve ser até menor. Mas, afinal, era uma cidade de sua época, com periferia e classe média. Porque ricos não se misturam nunca. Curitiba é linda, desde a Vila Verde até o Parolim, CIC incluso. Tá bom, o charme é o cavalo babão! Sítio Loko tá evoluído, só gente de bem! As esquinas quase escondem a discrepância de se viver no Tower Batel ou na Vila Pinto. Tudo normal sob o sol.

Gesto Inconfessavel

Quando, de algum modo, encontro aquele momento que não é pensar, mas, ainda assim, penso, dou de cara com a cara. Toda a minha existência se tornou um gesto para o inconfessável: encontro do meu duplo alado. Sagaz é o puleiro que engendra infindáveis espíritos; com nenhum deles tenho parte. Aflora o ponto sem dimensão, no puleiro que criei dentro do meu coração. Sei que Há. Sinto: consumo de teus ossos, meu avesso catalizado do caos. Vejo nítido nos momentos de não pensar o pensar. Se pensou, então já é Pois o incriado é Inconfessável. Que sejam todos meus os feitiços Catalisadores do meu Sabbath Falo Ofidiam Infernalis. 

Partição

Antes do que chamam Eras Parti-me em vazio obscuro e abismo E assim, sem uma parte da minha potência, Caí do inominável para o nome. Em dimensões de tesseracts escaláveis, Entrecruzados por tênue tecitura osmótica, O que era sem ser passou a contabilizar-se, Pueril, em partículas, átomos, estrutura , e eu. E se eu tenho um hoje é por falta Daquilo que de mim se desprendeu.  E se faço arte, é para elucidar A subtração da parte que me aferia à inominabilidade. Então, no encontrar me inteira Diante de face outra, Que se cumpra a pira: Yoni e Lingam, Sem nome novamente.

Metafísica como brinquedo

Ação e reação estão intrincadas numa metafísica que determina a fiscalidade. Mas, além dessa metafísica — essa estrutura invisível que nos dá conceitos, sistemas e registros sem que possamos tocá-los — não há nada a intrincar. Quando você se despe de qualquer causalidade, percebe-se como um objeto solto no nada, e então se abre um abismo: toda representação do ser, toda tentativa acadêmica de capturá-lo em conceitos, não é mais do que um brinquedo de criança. O ser nos toca, mas escapa; não há “posse” nem domínio, apenas a sensação de que aquilo que nos sustenta como pensantes é dado de fora, irreferencial, inacessível. Toda certeza se desfaz, e o que resta é a consciência de que qualquer sistema, qualquer definição, só se mantém enquanto nos prendemos às regras da metafísica que nos estruturou. Fora dela, não há nada registrado, nada a medir, nada a explicar. A realidade, então, se mostra nua, indomável, e o pensamento deve virar sobre si mesmo para perceber que estava sempre dentro d...

Magia e ciência

 A ciência se apresenta como o território da objetividade, como se estivesse acima de toda crença. Mas isso é apenas metade da história. Toda ciência é construída sobre conceitos prévios, sobre um enquadramento semântico que já delimita o que é possível ver, medir, experimentar. Ela opera dentro de recortes, e esses recortes não são dados pela “realidade bruta”, mas por uma organização de linguagem. Antes de existir o dado científico, já existe o campo simbólico que decide o que será reconhecido como dado. É aqui que a magia mostra sua superioridade epistemológica. Magia não trabalha com recortes, mas com a própria plasticidade dos recortes. É ciência da linguagem, ciência da instauração de mundos, ciência do antes. Enquanto a ciência analisa fenômenos dentro de um paradigma, a magia mexe nos próprios paradigmas. Ela não apenas explica realidades; ela cria condições de realidade. Se a ciência moderna diz: “Isto é objetivo”, a magia responde: “O próprio critério de objetividade já...