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Magia, Representação e Performatividade: Repensando a Realidade a Partir de um Regime Ontológico Perdido

 Não se trata de exaltar um passado idealizado. Tampouco se trata de assumir que civilizações antigas “sabiam mais” ou “viviam melhor”. A questão é outra: é ontológica. É preciso retornar à estrutura do pensamento, não à sua cronologia. A proposta aqui é usar a lógica — já que é ela nossa ferramenta vigente — para observar como determinados modos de pensar operam no real e o constituem. Isso nos permite compreender onde, ao longo da história, uma ruptura se deu entre realidade e ato.


Hoje, tendemos a conceber o mundo através da lente da representação. Essa lente pressupõe um intervalo entre o que é e o que aparece, entre o mundo e o pensamento, entre a ação e seu sentido. Por esse filtro, as práticas mágicas — assim como o dinheiro, o capital, os ritos e até a infância — são relegadas ao plano do simbólico, do jogo, da ilusão ou da crença. Mas essa separação é artificial. Ela nasce de um tipo de pensamento que retira da linguagem e do gesto sua potência de criação direta.


Quando uma criança brinca, ela faz ser. Ela diz “isso é um barco” e, no espaço da brincadeira, isso é um barco. O real está performado ali. O problema não é a brincadeira — o problema é esquecer que estamos sempre brincando. O capitalismo, o dinheiro, a linguagem jurídica ou religiosa também são jogos, mas jogados por sujeitos que esqueceram que as regras não são naturais, e que os papéis são posições — e não essências. Isso nos leva a tomar a representação como realidade e a realidade como algo que só pode ser representado.


Ora, o que os antigos egípcios — ou, mais precisamente, o tipo de pensamento operado por certas tradições — nos mostram, não é uma mística superior, mas uma lógica diferente. Para eles, anunciar era fazer. Nomear era instituir. Dizer era instaurar. Não havia uma separação entre o nome e o mundo, entre o gesto e o efeito. Isso não é um pensamento mágico no sentido frágil que a modernidade atribui ao termo. Isso é um regime performativo do real.


A magia, nesse contexto, não é um suplemento imaginário sobre um mundo físico. Ela é o próprio ato de fundar mundo. Ela é o modo como um gesto, um símbolo ou uma palavra produz realidade — não por força de crença, mas por estrutura. A modernidade dissolveu esse regime ao encapsular tudo na lógica da representação. Ao fazer isso, perdeu o contato com a performatividade ontológica dos atos.


Quando dizemos que o conceito já é o ato, estamos nos referindo a esse retorno: um pensamento que não representa o mundo, mas o produz. Um pensamento que age. A crítica à magia moderna — aquela reduzida a uma “visualização mental”, a uma fantasia autocentrada — é, nesse sentido, uma crítica à separação entre mente e mundo, entre desejo e ato, entre símbolo e corpo.


O que está em jogo aqui é um reposicionamento: deixar de ver a realidade como algo dado e começar a vê-la como algo feito — e que nos faz. É nesse movimento que o gesto mágico retoma sua força: não como superstição, mas como arquitetura ontológica. Não como crença, mas como operação. E isso, sim, tem efeitos concretos, perceptíveis, efetivos, no plano do fenômeno. Porque a realidade não é apenas o que é, mas o que acontece quando um corpo assume sua posição no jogo e, ao fazê-lo, o transforma.

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