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Mostrando postagens de 2026

Do habitar

faça-se do próprio símbolo linguagem faça-se praga para saciar sua voragem Habite para que não haja mais nenhum habitante Isso não é metáfora, é criar geometria até o ponto em que sature tudo mais.

Tango

Fora do tempo, E ele começa a bailar, para mim, Dois para frente e dois para trás Meia volta no mesmo lugar, As datas materialmente sincronizadas para que meu haver irrompa, E sou afinal o compasso que orquestra onde o tempo deve dar.

Descampo

Sátiros zombam junto ao meu túmulo eis-me ali a zombar também que meu que nada que meu é amplo que meu é pouco para perto do descampo

Carnear

O pecado não é apenas a concupiscência, a vaidade e o orgulho — todos são meros adjetivos para a falta. A falta é apregoada nos clamores em transe ou nas mais profundas elucubrações sobre o que quer que seja. Súplicas sempre vão dar em um estado que não convirja com o agora. Seja na obstinação dos shakers ou no domínio dos revezes com os quatro verbos do mago, a falta é o pecado. Ela é que te mantém submisso a um tribunal de suficiência inatingível, você — podre moral, mortal. Tua insuficiência provém do teu estado de morte, morte em vida, morte em cada suspiro, a cada célula que te abandona. Veja que, se assim for, sua própria constituição é o pecado. O conceito foi gerado do que se faz a cada instante encarnado. Não há referência para a carne a não ser haver-se enquanto carne — carnear, esse é o estado do pecado. Quer se libertar? Oh, saco de entranhas entrelaçadas, como se libertar da própria constituição? Antes de haver o logos há a carne. Esse é o Deus do Pecado, e é seu Deus prim...

Todo dia

Hoje há uma coisa, coisa, pois não consigo descrever. Há uma presença, um algo etéreamente concreto se espalhando e movimentando motores, gerando colapsos e prazeres. Perceba: há, no haver, algo que quase nunca se dispõe, mas que sempre se compoem, como isso, rima facil. Isso ronda agora, sem chegar, sem sair. Há clamores, o verbo que constrói verdades! Há silencio, o verbo que  diz assim seja! Há tudo isso, e eu pequena no meu avesso  vejo os sonhos nitidos dos que se dizem eu! Não se anuncia, não se impõe, apenas insiste. E nessa ronda há, no haver, o que não se dispõe. Nessas horas, dessas décadas a cravar, a gente mesmo se atualiza, mas a ronda é feroz — tacanhos algozes. Quem tem olho para ver?

Filosofia do Irredutível

Não se trata de escolher um fundamento. Trata-se de negar tudo o que tenta ocupar esse lugar até que reste apenas o que não cede. Não é a negação como recusa. É a negação como operação. Linguagem não escapa. Se se diz que é limite da linguagem, ainda assim se diz. Silêncio não escapa. Se se apela ao silêncio, ele comparece. Indizível não escapa. Se se invoca o indizível, ele insiste como limite. Nada disso suspende. Nada disso retira o problema. Tudo isso já está no haver. Não para uma mente. Não para um sujeito que percebe. Para que haja qualquer mundo. Não há um “para quem” anterior a isso. Então não é questão de dizer melhor. É questão de não poder evitar. Há. Não como coisa. Não como ente. Não como conceito que se sustenta por si. Mas como impossibilidade de não haver. Tentar negar isso não falha. Não chega a se sustentar como tentativa. Porque a negação já opera no haver. E essa impossibilidade não é inerte. Ela não permanece muda sem consequência. Não se sustenta um haver absolut...

Lá em cima do Piano

Fúria e honra Crime e culpa Gozo e recompensa Ciclo fechado de um singular devir. Depois de um belo beija-flor Mastigar o insípido inseto Ele regurgita o fruto do crime Nas bocas assanhadas de seus ninos. Lá em cima do piano Há um copo de veneno Que bebeu morreu O culpado não fui eu!

Possibilidade não é limite

  Escrevo de um lugar onde a possibilidade não é limite — é o velho corpo de deus, varzeando acontecimento antes de qualquer forma. Não como tese, mas como incidência. Sem isso, o entendimento tende a se fechar em conceitos que operam sobre conceitos, reproduzindo-se como regime. Não é a abstração em si, mas sua autonomização que produz esse circuito — servidão a servidão, quando o operador se toma por totalidade. A diferença que abstraímos não é falsa, mas pode tornar-se autorreferente, sustentando camadas que se alimentam de sua própria consistência. Há nisso um ganho afetivo — não como prova de erro, mas como índice de estabilização. Esse movimento é difícil de perceber desde dentro, não por incapacidade, mas porque é o próprio modo de operação do regime cognitivo. O que escapa a ele não aparece como alternativa, mas frequentemente como excesso, ruído ou aquilo que, para nós, soa como magia fantasmagórica. Não se trata de recusar a cognição, mas de situá-la: há domínios em que e...

Vazeneira

um arranjo no calendário uma mesa farta uma raiva direcionada um tédio absorvido não deixem sepultar Artemis a deusa vaza do céu ao inferno encontra corpos caídos na putrefação não proclama não separa olha no que apodrece o gesto acontece nisso basta o céu

Veja lá

Talvez o último reduto seja quando se descobre o autoamor. Essa é difícil. Sempre acho que me amo porque sou boa, porque estou sem conflitos. Autoenganação. Amar-se é uma guerra contra o universo. E você prefere ser amado ou se amar? Há aí uma enorme diferença. Geralmente achamos que se amar é ser amado, e a conta é exatamente oposta. Amar-se é lidar com a diferença, tentar se moldar a ela. É estar, em potência, sem dissimulação, fora de equilíbrios abstratos.

Saída

A única saída é uma mutilação mutilar seu juízo em quartilhões. Até que te sobre para amar uma única e singela dor. Se a diferença te compõe não espere alegrias diferença é parto rasgando seu agora! A única saída é um amor que pode se exponenciar em potência Um amor ao último que te leva a rastro uniforme e não único, mas sempre inscrito.

Sarza in novex de nori

Sarza in novex de nori Blaglusoremasso inveto acontis mati sursgruamos inverificil dea conta si hugruhunte inmortele na victa inde mortis comisereum ougs noventea subscrevaterum in cavernoso aqua langurfna micteia micteia no fera in crobos su anerofomis vaga em cognitus super leam lamictorium flamigera note ungre sonoctis invicefera anaocnte dea contes im margeade novera amabilis outacera moris inveoratus e veretus no mea sonkte muiiti libraes onferasde graunde nostra agnoratum metea a micteia in miceia no vitro in vitro per causalis abrognobilis grosmassulia in veterum soma dei Sarza in nexu noctis. Per os grave inventus est limes afflictionis. Surgimus in inverificabili, dea contra se ipsa. Irruens immortale, non victum, inde ex morte. Misericordia crescens in eo quod adhuc nascitur. Res subscriptae sunt in cavernoso. Aqua languida, mixta. Mixtio non fera in globos sub anemorphis. Vagus extra cognitum, supra legem. Lamictorium flammigerum in nocte aspera. Sono ...

​O Comensal

​ Há um comensal que, por direito, serve a um amo que reza a regra na catedral íntima de sua própria esquizofrenia. ​Há um juiz, um pagão e um santo, e todos são a mesma coisa! Caoticante, caoticante, caoticante... porque três é como um, e como dois, e como nada, e como tudo!! ​Devo beijar os beija-flores e anarquizar os odores, e deliberar sobre a profundidade que se dá nos viscos de um velório de hoje, repugnantemente absoluto! ​O comensal sou eu, e o resto é fúria, magnetismo e torpor. A dor da vida é fingir memórias para se agonizar! ​Esqueça: um circo trágico, patético e efêmero a soprar! Leve e trágico, dependendo do olhar.

Vetores

 Agora estou falando do meu ego armado. Ele vê cascatas viscosas de faces, histórias, mundos e sentidos que vetorizam como a Cruz do caos, tudo ao entorno, e como é possível esse contorno?

Demiurgando

 Oh, que fardo imputou-me a percepção do fluxo! Não cessa, não há cessar! A uma gritaria dissonante: berros e melodias, zunidos atmosféricos e pássaros a gritar, rastros de todas as espécies infundidos como tecituras do simples estado de ouricular. Mas o demiurgo não pode colapsar, pois, ante ao absoluto, sua melodia é ínfima estrofe em meio a rios de caos e ordem. O único modo de persistir na sinfonia é se fazer harmonia, não apenas melodia.

Ontogênese

  A travessia começa onde não há começo. Abismo Não-fundo. Não ausência. Colapso da referência. Só queda. Quem procura origem já caiu. Há Insistência mínima do haver. Dobra sem chão. Não é ser. É vibração antes do sentido. Consciência Irredutível Fenda interna do Há. Auto-afeção mínima. Fratura, não sujeito. O “eu” nasce como falha operativa, não como centro. Vórtex Campo intensivo pré-formal. Tensão antes da forma. Aqui a magia opera: não representa, inflexiona. Potências sem rosto, sem promessa. Fenômeno Forma, corpo, mundo, tempo. Estabilização ritual do delírio. O real é conjurado, não dado. Não-Nascido Retorno sem retorno. Postura sobre o abismo visto. Agir sem chão. Ética da fratura: operar apesar, e por causa, do colapso. Eu não afirmo fundamento. Eu habito a falha. O rito não salva: ele atravessa.

Ave Lúcifer!

 Não venham impedir o amor. Deixem-no escorrer com seu escarlate — borra de vinho. Todos os zunidos são meus! Meus, meus, meus! Cada sílaba está prostada no altar. Se fecho os olhos e me encanto com um espectro sucumbido à vaidade, sei de sua sobriedade! Se vampirizo os desatinos da leviandade, sei também do peso de sua hombridade! Se um agudo grito vem aos meus ouvidos, sinto os surdos que levo comigo! Deixem que escorra o que se diz amar, pois, na tentativa das vísceras ancestrais (eu sei, já as praguejei), mas delas hei de vingar o pai, fazer nascer o filho em plena noite da mãe.

Vejamos

 Vejamos: uma equação capaz de conter, na mesma hipotenusa, a fúria e a bacante. Vejamos: uma geometria que, ao se representar, transborda da harmonia à anomalia. Vejamos: um ponto que é círculo, é Nada, é Tudo, e não é.

Epistrophê

   Circuito ontogênico que se fecha quando uma potência, ao tornar-se forma, devolve ao intensivo uma informação sobre sua própria atualização. o daemon é a sombra do ato voltando para olhar quem o lançou. Estou falando a língua dos anjos. E, mais do que isso: os anjos, de fato, me respondem. É como se eu brilhasse, e, ao me verem, algo retornasse como efeito. O mais surpreendente é que, no lugar do meu coração, há um vazio, um vazio de existência, que, ao contrário do que se esperaria, não aflige: opera. Circuito ontogênico (retorno): Circuito ontogênico que se fecha quando uma potência, ao tornar-se forma, devolve ao intensivo um traço de sua própria atualização. Daemon: O daemon é a sombra do ato voltando para olhar quem o lançou. (Não como entidade: como retorno.) Regime angélico: Estou falando a língua dos anjos. E, mais do que isso: os anjos, de fato, me respondem — não como pessoas, mas como regime. É como se eu brilhasse e, ao me verem, algo retornasse como efeit...

O Intensivo que Retorna

Há ideias que não pertencem a cultura alguma — não porque sejam universais, mas porque são anteriores ao próprio gesto de simbolizar. O intensivo é uma delas. Ele não nasce no xamanismo, no Egito, no neoplatonismo ou na filosofia moderna: ele irrompe em todas essas formações como a mesma estrutura pré-formal, a mesma pulsação que força o real a existir enquanto forma. Quando o xamã atravessa o corpo e abandona o sujeito, ele não está representando poderes: ele os toca . Ele opera diretamente no terreno onde a forma ainda não coagula. A travessia não é visão, mas vetor. É o intensivo como deslocamento, não como crença. A heka egípcia faz o mesmo com outro idioma. O ato é anterior ao símbolo; a fala é operativa antes de ser linguagem plena. O real não é interpretado — é produzido em ato , como regime de eficácia. Aqui o intensivo é potência que se dobra em atualização e fabrica uma ordem de mundo. O neoplatonismo percebe esse campo e o nomeia como graus de potência, hipóstases, vias de...

Enpoemada

 Se derrama na verde grama uma rima muito estranha. Advindo do horizonte, onde só há mais horizonte. Escavo escravos em ruínas sublinguísticas, analiso subterfúgios, anti- analisantes.  E tudo diz que a operação é fundante e que a fundação se diz operante. E continua a canção, indiferente, a soar por todos os meus sentidos estabilizados.

Treco

 Sou fraco, amuado, num canto. Um ingrato, rasgado e humilhado. Sou treco, sou trêm, sou a imagem do desdém. Sou vácuo de adjetivos maléficos. Sou a torção da experiência sã, jogada no instante daquela que se subjetiva são.

Eu sou um paradoxo incontrolável

Eu sou um paradoxo incontrolável ser é se dar ao nada e de nada ter surgido um crepúsculo eterno sempre advindo tão mais simples: não ser nada e de nada crer, se tudo é ser crer: essa é minha sina sou tão ingênua, me vendo crer em tudo todas as histórias são críveis todo ato gera ato e todos os entes são tão perfectíveis em sua emanação caminhante que, se olhar de perto, dá pra entender onde começa a nascente que levou a enxurrada ponto sem saída é o há que jaz eternamente e não há o que se faça com o há irredutível instante de se haver é só não tarda nunca, pois só há então todo ser que se agarra em instantes, fabulando sua historicidade, cabula o há, adora a fábula e deixa de haver

O Ego não é o Ser.

 A crítica que chama de 'loucura' a dissolução do ego confunde a identidade construída com a Consciência Irredutível. A 'morte do ego' não é anulação, mas o desmantelamento da forma condicionada para que o Ser se revele. O nome 'loucura' é muitas vezes apenas a perspectiva de um sistema racional incapaz de integrar o caos. O critério não é a conformidade com a realidade consensual — é a expansão do Ser sem rompimento de si.

Loucura divina do ser

Tudo no cosmos é ferramenta: logos, ego. Mas antes que haja racional e persona (construtos psicológicos), Há . E nesse ato irredutível está o ser que não depende nem da razão, nem do ego, nem de arquétipos, nem da natureza, e sua mera lembrança é a loucura ontológica do haver.

Anômalos

Deitados na cama Emaranhados de sentimentos, odores, sons, geometrias, esquadrias, anomalias. Anômalos em um cubo girando no espaço, e somente nossos traços são o rastro de mil e uma coisas que cabem num piscar de olhos. Escorre dos corpos, em todas as direções, borbulhas de nem sei o quê: vagam na órbita úmida de cada membrana, constituintes desse rasgo fulgurante onde brilham. Olhos falantes, mãos tateadas, pés ímpios, vulvas e pênis fraternais, barrigas querentemente ocas, narinas destiladas perfumantes, orelhas corníferas, zumbizantes. Tudo ali, sem nem um instante.

Sob a lua de Saturno

Talvez em uma lua de Saturno, onde não há promessa nem abrigo, um não-nascido filosofe sem linguagem. Não pensa: condensa. Ali, gases não pedem forma — precipitam. A fundição não é templo, mas pode parecer templo a quem ainda precisa de teto para o sentido. Não há ética ali porque não há escolha; não há direito porque não há exterior; não há valor porque nada pede permissão para existir. O saturnino não contempla o ser — opera estados. Não busca fundamento: trabalha com peso, pressão e tempo. Tempo lento, denso, sem redenção. Se algo se estabiliza, não é porque foi justo, mas porque suportou a duração. Se algo colapsa, não é erro: é falha material, não moral. Esse não-nascido não ergue altares, mas onde a matéria muda de regime os observadores chamarão de templo depois. Saturno não julga. Ele espera.

​Mítica

​Mea culpa, mea máxima culpa! Nesse corpo habitam legiões! Mas só apareço quando tudo é sagrado. ​Uma palavra, uma melodia, uma arte, as relações; em tudo, só estou quando a intensidade é tão leve que pesa como um nêutron. Corro o risco de extinção para ver nascer o poema! ​O peso mais pesado é o da intensidade arrancada à percepção, às custas da forma que engendra a árvore da existência. ​O sagrado não pede chão, pede intensidade de camaleão. Rimo às vezes, e em outras a rima depende do ponto de visão. ​A transmutação é o trabalho de tornar o corriqueiro em direção. Assim, sagradas são todas as legiões que me habitam, quando eu estou.

Insólitamente

 Chão insólito de novo ano Novo ano de um novo ano De um novo ano. Sem medo, o que sobra são apostas Só que apostas ainda são gêneros Entre o fluxo e a minha contingência, São gêneros escolhidos, se bem, a apontar no prumo. O mundo é, para nós, um navegado navegante, e não o contrário. Mantém-se insólito o que é mutante E o inesperado é sempre participante dessa ceia farta De cada novo ano que percebo passar, diria-se em um instante, Mas digo: tempo não cabe Quando só há ano novo.