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Mostrando postagens de abril, 2025

Gargalhar

Uma dor pode ter uma beleza íntima, inexplicável para outro ente. Quando se percebe que a perturbação traz consigo o trágico-cômico — pois tudo neste ego é lembrança ou projeção —, então se pode dar gargalhadas das desgraças e das voluptuosas vitórias. Quaisquer que sejam, o valor é o mesmo.

Essa é uma ode escarnia do mal que me constituí

Essa é uma ode escarnia  do  mal que me constituí  Sigilo secreto que conjuro a usurpar minha luz Trevas veneradas que se mostram sóbrias em plena vigília! Como escaravelhos a carregar fezes, assim me correm fluxos de um mal natural e supra natural. Sou uma besta luxurienta cavalgando virtudes vans. Há um sarcófago libertário dentro da casa-divã! Comem comigo demônios sátiros na mesa farta da páscoa cristã.

Highlander, filme vetor

Só pode haver Um. Cruel e solitário destino — me peguei pensando: se para alcançar o Um, é preciso que só Ele reste... então tudo deve se desfazer: crenças, propósitos, intenções. Mas não para aí — desmoronam também os rostos, as criaturas, as texturas, os sabores, as cores. As instâncias se liquefazem, os contornos derretem, e tudo o que era “eu” vagueia, sem forma, tentando ainda nomear o que já não pode ser nomeado. É nesse ponto que o real se distorce, que se caminha no vazio entre as formas. Não se é mais. Mas tampouco se deixa de ser. O Um, não é a presença. É a ausência de qualquer outra coisa.

Sob o efeito da Cannabis

Estava no meio de um fluxo incognoscível. Do nada, soltei a última parte da Ave Maria. Era como se a oração emergisse de dentro de mim, sem intenção, sem pensamento. Depois de algum tempo, fui sendo levada — através de muitas eras desta minha vida. E, sempre que tentava me apegar a alguma, lembrava: aquilo não era real. Fui atravessando formas, nomes e rostos até que já não havia mais um “eu” que pudesse se esgotar. Entrei então em alucinações desordenadas, em constante alteração. Continuei a ignorá-las — não era o que eu queria ver. Tudo era ilusão. Por fim, me encontrei em algo real. E o que vi, só posso traduzir como um frenético pulsar, um chocalhar de polaridades vibrando umas sobre as outras. Ali estava Barbelo — pois assim se apresentou a mim. Vi sua natureza, a vibração das forças antes da forma, o abismo criador. Enquanto me diluía, alguns entes tentaram me molestar. Diziam que eu era insignificante. Mas os recusei, um a um. Não por orgulho, nem por raiva — mas porque a única ...

Graça

Que graça há em viver, se não fizer de todo instante um trágico apontamento para o próximo? Essa é a mastigação dos instantes do porvir a porvir... Mas tenho sentido que vi hoje o que amanhã já aconteceu, e que o que senti ontem está agora na boca, e que o que vomitei há pouco ainda não nasceu! E tudo verve, ou ferve, ou é refrescância — ânsia, ganância, abstinência, tolerância, e pujança! Ah, gozo sem fim — cada dor é um acúmulo a mais de mim!

kaos

Kaos Rasga o céu azul numa tarde rotineira, com milhões de formas — abutres em revoada sangrada. Noite na encruzilhada, silenciada pelo meu tinido. Andança para um destino no tempo errante, transluzente, alucinante. Meticulosa sapiência nos cílios postiços, emaranhados em crucifixos. Rezas que determinam o éter. Calor que suplica ardência, ardência que só quer arder. Todo corpo se transborda sem fronteiras, amante da confusão. O interdito só é prescrito — nunca é definição.

Saturno

Hoje, encontrei Saturno ascendendo no mapa do meu nada. Prozeei com o Sol, vestido de Cristo na história. As cartas cantaram um movimento satisfatório rumo à finalização. E o cheiro, impregnado de suor na tessitura das formas, me leva à linha de Antares e Aldebarã. Está na hora de cruzá-la!