Eu sonhei que estava em casa. Tudo parecia normal, até que, de repente, eu menstruei. A menstruação veio assim, do nada, como um enxurrado. Eu acho que eu estava no banheiro, indo tomar banho, mas aí ela veio com força, e não era sangue puro. Era como se fossem micro-bolhas de sangue — vermelhinhos — se espalhando pelo chão do banheiro.
Junto disso, saiu uma gosma. Era tipo uma placenta. Uma coisa viva, densa, que começou a comer tudo. Ela foi absorvendo cada bolhinha de sangue, puxando para dentro de si, e virou outra coisa. Um ser. Uma coisa acumulada, reunida, como se tivesse ali alguma forma de vida, condensada. E ficou ali. Aquilo ficou ali, vivo.
Eu saí. Não sei por quê. Talvez para mostrar para alguém. Para os meus filhos, talvez. Eu saí na rua e, no meio do caminho, eu lembrava que precisava voltar. Voltar para onde estava aquele ser. Eu sabia que ele estava lá, me esperando, ou apenas existindo, e que eu precisava voltar.
No caminho de volta, havia uma entrada, um trajeto que levava para onde eu queria ir. Só que ali, naquele caminho, tinha um cão gigante. Um cão magrelo, esquisito, estranho. Ele era o guardião. Ficava decidindo quem podia passar e quem não. Algumas pessoas ele deixava, outras não. E ele não explicava. Era só um olhar, e pronto: você passava, ou não.
Quando chegou minha vez, ele não deixou eu entrar. Mas eu olhei para ele com desdém. Nem raiva, nem medo — só aquele olhar meio debochado, como se dissesse “é sério isso?” Achei graça. Virei as costas e fui embora.
Só que aí eu olhei para trás e ele tinha se transformado num homem. Um homem mesmo. E, de repente, esse homem apareceu do meu lado. Estava indo comigo. Não por aquele mesmo caminho onde ele guardava, mas por um outro. Eu tinha feito um desvio, um outro trajeto, e ele agora me acompanhava por essa via.
Chegamos lá. Na casa. No lugar onde estava aquele ser, aquela coisa que tinha se formado da menstruação, das bolhas, da gosma, da placenta. Eu fiquei do lado de fora. Ele foi lá dentro para ver.
E quando ele viu... Ele se assustou. Levou um susto tão grande. Um medo, uma coisa assim, profunda. E eu, olhando para ele, pensei: "Nem é pra tanto." Aquilo não me assustava. Porque eu sabia o que era. Eu tinha visto nascer.
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