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Mostrando postagens de fevereiro, 2025

Exotérico

Tudo no meio esotérico parece autoajuda barata, uma fórmula de autodesenvolvimento para alcançar a iluminação e, um dia — sempre um dia distante —, tornar-se um ser perfeito. Vendem o antinatural, o estático projetado no futuro. Roubam o agora e oferecem apenas uma projeção, que caminha contigo mantendo-se sempre à distância. Por que não ser perfeito já, no que se é, como singularidade movediça? Por que não largar todo o fardo do que se deve ser , esse holograma de horizonte? Sendo agora tudo, neste exato instante, potência nunca acabada.

Não à Paz

Imperatriz Mor II – Gozo do Vazio Me surpreendo quando vejo minha lucidez transparecer nas anatomias responsáveis do cotidiano. Minha calma externa, minha objetividade, o bom senso aplicado nas mínimas relações entre mim e o mundo. Mas tudo isso é uma máscara para o caos que me habita, para o ente que clama guerra, luxúria e gozo. Nada dentro está calmo, tudo dentro está em perpétua guerra. Não há em nenhum instante a calmaria. Dentro, quero gozar como uma criança que só sabe se aprazer em todos os contatos, suplicando e birrando por mais, mais e mais. Dentro, há a Imperatriz Mor da existência, que absolutamente não quer paz. Paz é deixar de ter gozo. Ela quer o estado insandecido de êxtase, erguido sobre a glória do vazio. O meu pensar é vício dialético, sempre a me julgar. Quando entro nas piras das culpas, vem a insanidade lembrar: não posso ser julgada. Essa insanidade é tão insana que não rasga dinheiro nem come coco. Não saio pelada na rua, nem mato alguém com raiva no rosto. Mas...

Grimório para a Amoralidade

O que é moral? Se verificamos que os paradigmas são abstrações humanas, tudo o que implica moralidade só é válido por convenções de sistemas. Assim, se a magia, em última instância, pretende manipular os sistemas, ela age de fora deles. O verdadeiro magista, aquele que ultrapassou o nível de aprendiz, sabe usar essa artimanha. O carma só faz sentido para quem está inserido na roda de Samsara; fora dela, não tem poder. O mago que alcança essa magnitude ultrapassou as causas e efeitos pressupostos pela fisicalidade, que, na verdade, é construída pela linguagem. Isso não significa negação, tampouco embate. O entendimento ocorre de fora, e a manipulação não visa mudar ou melhorar estruturas—ela simplesmente as usa a favor. Questões sobre ética mágica, como o impacto das práticas sobre o livre-arbítrio alheio, tornam-se irrelevantes para quem enxerga além, pois dentro de um sistema não há livre-arbítrio. Se o sistema é um campo de forças pré-determinado por regras internas, então a noção de...

Colloquium Versos

Hoje eu quis ser diferente. Botei uma camisa, botei-a até em cima. Nossa, como estou diferente. O que é esse ser? O que é essa camisa? Onde está meu ponto, meu convexo, minha forma? O que sou eu? O que sou eu? Dissociação, dissociação, dissociação. Entre curvas, linhas, mais extremos. Todos eles dizem que sou eu. Que ponto sou eu? Dissociação, dissociação, dissociação. Nem gosto, nem gostoso, nem desgosto. Nem nada, nem Nietzsche, nem toda sua palhaçada. O Carl, o Freud, o Jung também. Pois todas essas... analisandas, analisadas, mentes encucadas não dizem nada, nada, nada do ponto que se move. No meu nada que abre de tudo. Dissociação, dissociação, dissociação. Uma rima. Uma rima na minha cima. Um ponto que se move em todas as direções. Olha a copa do tiro. Olha a copa do pinheiro. Não vejo nem copa nem pinheiro. Nada vejo, nada vejo. Olha o volante do carro. A cara da atendente. Nada de ele. Estão indo, negurados, nem nada, todos eles. Volante, copa, atendente. Dissociação, dissociaç...

Não há concessões

Não há concessões quando se trata de meu ente. Dos paraísos lúdicos aos infernos delirantes, da calmaria singela de uma tarde de preguiça ou em meio a atrocidades que rasgam meu cotidiano, nada disso diz nada se meu ente se pronuncia. Doutrinas, gurus ou qualquer coisa que valha são apenas alegorias onde meu ente se alimenta. Quer ver a realidade? Olhe a serpente dos encontros fortuitos, ou mesmo nos bobos. Só há um ente a ver real.

Tudo é real

Tudo tem sua realidade. Antes de negar, tomarei por real todas as coisas. Se a própria realidade é que nada tem realidade por si só, então, do ponto de vista das coisas, elas são reais. Parti de uma desconstrução dos conceitos, onde nada é real. Mas, mesmo que isso seja verdadeiro, essa postura me afastaria de agir no grande fundo universal—o fundo mágico. As costuras de significados que são e produzem efeitos dentro desse fundo, no plano astral, são, portanto, simultaneamente reais e irreais. Negar a realidade das coisas seria negar o próprio fluxo dessas costuras. A realidade não é um absoluto fixo, mas um jogo de forças e sentidos que se entrelaçam, emergem e desaparecem. Em vez de desconstruir para dissolver, desconstruo para permitir que as coisas se manifestem sem fixá-las em uma negação ou afirmação rígida. A magia está na maleabilidade das realidades, não na busca por uma verdade últi ma.

Yesod

Na fração de segundos, tudo se tornou um só movimento. O sibilar percorreu dimensões, rachou o silêncio anterior ao som, e ali, na fenda onde a consciência se perde, eu fui. Fui todas as perspectivas possíveis, um milhão de sentimentos convergindo num só pulso, um relâmpago de devir. Nenhuma voz me atravessou. Nenhuma sombra me conteve. Ergui-me dos umbrais yezódicos, dissolvendo-me na própria potência do inst ante.

Sibila yesodica

Que nenhum filho da puta se atravesse no meu caminho!   Erguendo-se dos umbrais iessódicos,   clama a voz no silêncio anterior a todas as frequências vagantes.   Levantam-se bestas celestiais   e cachorros infernais,   ao sibilar que é potestade perante todos os efêmeros fluxos das dimensionalidades.   Em Malkuth, alma do mundo,   as sibilas transmutam em todas as perspectivas de consciência   o que é o eterno devir.