Ação e reação estão intrincadas numa metafísica que determina a fiscalidade. Mas, além dessa metafísica — essa estrutura invisível que nos dá conceitos, sistemas e registros sem que possamos tocá-los — não há nada a intrincar. Quando você se despe de qualquer causalidade, percebe-se como um objeto solto no nada, e então se abre um abismo: toda representação do ser, toda tentativa acadêmica de capturá-lo em conceitos, não é mais do que um brinquedo de criança. O ser nos toca, mas escapa; não há “posse” nem domínio, apenas a sensação de que aquilo que nos sustenta como pensantes é dado de fora, irreferencial, inacessível. Toda certeza se desfaz, e o que resta é a consciência de que qualquer sistema, qualquer definição, só se mantém enquanto nos prendemos às regras da metafísica que nos estruturou. Fora dela, não há nada registrado, nada a medir, nada a explicar. A realidade, então, se mostra nua, indomável, e o pensamento deve virar sobre si mesmo para perceber que estava sempre dentro de um jogo que não criou.
Em muitas correntes filosóficas, o conceito de devir é central para entender como a vida, o ser, a matéria e o espírito estão em constante movimento. O devir é o processo de transformação, mudança contínua, que nunca se concretiza em um estado final ou estático. Mas e se, ao pensarmos sobre o devir, pudermos também questionar o que está se transformando, como ele se origina e, principalmente, de onde vem essa força transformadora? Quando exploramos o devir-mulher, como o entendo aqui, não se trata apenas de uma mudança fluida, aberta e indefinida, como nos propõem Deleuze e Guattari. O que está em jogo não é apenas um movimento sem forma ou uma transição indefinida, mas uma essência primordial, que se conecta diretamente com a própria base da vida humana e natural. O devir-mulher não é apenas um potencial de transformação, mas a própria força vital, a energia que mantém os seres e suas relações em continuidade. A mulher, nesse devir, é a representação dessa força unificadora, um elo es...
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