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Mostrando postagens de agosto, 2025

Aforismos para o grande Vampiro.

O senso de crença não apenas valida a experiência, mas é também por ela validado: crer é o gesto que confere forma ao vivido, e viver é o ato que devolve consistência à crença. Um não se sustenta sem o outro — crença e experiência se geram mutuamente, no mesmo sopro.. Todo sacrifício é troca que só existe na tensão entre restrição e crença. A natureza é um velho vampiro velho, que suga a virilidade do caos. Transmutando mistério em matéria e matéria em servidão. O vampiro é dentro e fora da cognição, pois o que  possibilita o pensar, dele se constitui. É um mapa já inscrito de antemão, um código de estruturação.

Cthulhu

 Semioticamente, não importa a realidade — ela é sempre construção. O mito não é ilusão: é o real mais real, o eixo que sustenta todo pensamento. Nós, seres de carne, não passamos de massas significantes, carregando marcas e inscrições. Até a carne é signo — jamais pura matéria, mas linguagem encarnada. É por isso que Cthulhu é real. Real como a cor azul diante dos meus olhos. Ambos se dão no mesmo plano: o da experiência que já nasce atravessada por signos. Se o azul é um acontecimento perceptivo, Cthulhu é um acontecimento mítico. E entre um e outro não há hierarquia: há apenas diferentes modos do real se inscrever em nós.

O ar que respiro

 Só há no fora do fenômeno. O Há não se dá no sujeito, mas no abismo que se devora a si mesmo. O Não-Nascido habita esse fora: irreferenciável, impessoal, sempre já presente no rastro que o mundo não alcança. Não se prova, não se mede — só se verifica no gesto de atravessar o abismo. Ser é estar no devorar, e o devorar é ser: a consciência, pura, só lá Há.

Mistério do três

 Sonhar é o erótico em sua forma mais pura: despertar no meio de uma conversa banal e perceber a impossibilidade do que se chama real. O impossível se oferece, lascivo, entre brumas contorcidas, formas espectrais e fractais. É preciso cautela: não se deve conceder realidade aos devaneios jubilosos. Mas quem habita entre planos sabe — o hedonismo se transmuta em guerra, e a guerra, meu caro, é amor: junção dos antagônicos, mistério do três.

Eu quero habitar um sufi em transe dançando e levantado poeira de mundos.

 Deve haver dois modos de imaginação. O primeiro é o comum, que se prende aos conceitos perspectivos já dados. Nele, imaginar significa apenas projetar o corpo em situações: imaginar os olhos vendo algo, as mãos tocando algo, o corpo agindo como se estivesse presente. É uma imaginação ainda subordinada à lógica sensorial, que se repete dentro dos limites do corpóreo. Mas há outro nível de imaginação. Um que não se anuncia como projeto do corpo, mas como presença pura. Não se trata de “ver” com os olhos ou de “sentir” com a pele, e sim de simplesmente estar, aberto, em contato imediato com aquilo que aparece. Nesse regime, o tato não precisa da mão, a visão não depende da retina, e a percepção não se organiza a partir de um foco. É a imaginação fluida, liberta da forma corpórea. É aí que a magia encontra sua diferença. Enquanto a imaginação comum apenas repete, a imaginação fluida cria: abre um campo em que o corpo não é mais medida, mas apenas um entre outros possíveis suportes. Lá...

Impossível perpendicular

 Nada precisa fazer sentido, cabe apenas o gotejar dos meus fluídos sagrados, gerando. Deles, vetores são fluxos que insistem no impossível. Cada gota faz um orgasmo particular, e no êxtase há eu — e eu mesma sou o impossível perpendicular.

Habito onde nem mesmo o vislumbre ousa imaginar.

 Das viscosidades personalizadas escapam, os que podem o supra sumo para construção do duplo. Aterrorizantes são as cavernas onde habitei por eras. Cada uma com seus monstros incestuosos se agarrando a cada pedaço de carne pendente. Monstros já familiares — e ainda assim insignificantes. Todos eles eu absorvi. Tornei-me o monstro-quimera das bestas trancisionais que, no caminho, me jorrei. Minha imaginação é bem mais capaz que qualquer horror patético de cinema. Onde milhões de cães lambem o sangue derramado por deuses descrentes — creio, sim, em minha gana! Sem retorno. Onde caminham vagantes as direções de uma multidão que é um só corpo — não hei! Hei de mim — a mim mesma — rasgando o nada com a força de um estupro que violenta a própria existência. Insanadecida de cor, vigor e mais fulgor — habito além do espaço esculpido. Habito onde nem mesmo o vislumbre ousa imaginar.

Magia, Representação e Performatividade: Repensando a Realidade a Partir de um Regime Ontológico Perdido

 Não se trata de exaltar um passado idealizado. Tampouco se trata de assumir que civilizações antigas “sabiam mais” ou “viviam melhor”. A questão é outra: é ontológica. É preciso retornar à estrutura do pensamento, não à sua cronologia. A proposta aqui é usar a lógica — já que é ela nossa ferramenta vigente — para observar como determinados modos de pensar operam no real e o constituem. Isso nos permite compreender onde, ao longo da história, uma ruptura se deu entre realidade e ato. Hoje, tendemos a conceber o mundo através da lente da representação. Essa lente pressupõe um intervalo entre o que é e o que aparece, entre o mundo e o pensamento, entre a ação e seu sentido. Por esse filtro, as práticas mágicas — assim como o dinheiro, o capital, os ritos e até a infância — são relegadas ao plano do simbólico, do jogo, da ilusão ou da crença. Mas essa separação é artificial. Ela nasce de um tipo de pensamento que retira da linguagem e do gesto sua potência de criação direta. Quando um...

Náuseas

 Ando sentindo náusea de figuras que falam calmo, como se tivessem um trato com a verdade. Místicos profundos, que orientam no caminho do bem e do progresso. Ensaboados em seus discursos sofistas — nada dizem de novo —, mas posam como xamãs de índio cara-pálida, romantizando o 'contato com a natureza'. Emaranhados na trama semiótica, acreditam fazer o bem, o melhor, a união... Falácias! Estrumes de linguagem.

O Resto, o Devir e o Não-Nascido: Rupturas Ontológicas em uma Modernidade que Não Passa

  Todo pensamento que pretenda fundar-se sobre si mesmo acaba por se deparar com uma circularidade. O gesto de pensar o humano — como dever, projeto ou essência — parece sempre lançar uma imagem para frente, um horizonte, um além que ainda não é. O humano seria, assim, aquilo que deve vir a ser, um vir-a-ser que nunca se esgota, pois seu ponto de origem está em falta e seu fim sempre adiado. Isso configura uma tensão permanente entre o que se é e o que se deve ser. Essa estrutura, por mais que varie suas roupagens — como ética, progresso, salvação, emancipação —, mantém um núcleo comum: a pressuposição de uma falta ontológica que exige superação. E é exatamente aí que o eterno, muitas vezes invocado como solução ou fundamento último, se mostra ambíguo. Pois o eterno, quando identificado com esse horizonte regulador, torna-se não uma plenitude, mas uma dívida infinita — um tempo congelado na forma do dever. Um eterno-devir que nunca chega. O erro, talvez, esteja justamente em entend...

O Cão, a Gosma e o Caminho

Eu sonhei que estava em casa. Tudo parecia normal, até que, de repente, eu menstruei. A menstruação veio assim, do nada, como um enxurrado. Eu acho que eu estava no banheiro, indo tomar banho, mas aí ela veio com força, e não era sangue puro. Era como se fossem micro-bolhas de sangue — vermelhinhos — se espalhando pelo chão do banheiro. Junto disso, saiu uma gosma. Era tipo uma placenta. Uma coisa viva, densa, que começou a comer tudo. Ela foi absorvendo cada bolhinha de sangue, puxando para dentro de si, e virou outra coisa. Um ser. Uma coisa acumulada, reunida, como se tivesse ali alguma forma de vida, condensada. E ficou ali. Aquilo ficou ali, vivo. Eu saí. Não sei por quê. Talvez para mostrar para alguém. Para os meus filhos, talvez. Eu saí na rua e, no meio do caminho, eu lembrava que precisava voltar. Voltar para onde estava aquele ser. Eu sabia que ele estava lá, me esperando, ou apenas existindo, e que eu precisava voltar. No caminho de volta, havia uma entrada, um trajeto que ...

Hermetismo é uma armadilha

 A máxima hermética “assim em cima como embaixo” talvez seja uma das armadilhas mais sedutoras da metafísica ocidental disfarçada de sabedoria ancestral. Em vez de romper com Platão, ela o reencena com véus esotéricos: duplica o real em dois planos — o superior, ideal; o inferior, refletido. Mas se tomarmos a ontogênese egípcia em seu núcleo mais potente — como emergência caótica e autogeradora — então já não há um “em cima”. Há apenas o dentro: um abismo irreferencial que se pliega sobre si, gerando mundos sem espelhos. O Não-Nascido não reflete: ele perfura.