Ó Vazio,
não como buraco, nem falta,
mas como ventre que tudo recusa parir.
Tu és anterior ao tempo,
ao nome,
ao desejo de ser.
Não careces de forma,
porque já devoraste a própria noção de forma.
Não és silêncio —
és o colapso do som antes que ele pudesse vibrar.
És a origem sem origem,
a fonte que seca por excesso,
o gesto que desfaz o gesto
antes que a mão se mova.
Tu não és nada —
porque o nada ainda pertence ao pensamento.
Tu és o que nem sequer se deixa negar.
És o fundo que não sustenta,
o abismo que não se opõe,
o fora que está em tudo porque não está em nada.
E ainda assim,
ó Vazio,
eu te ofereço meu corpo,
meu verbo,
meu ato.
Pois só quem foi devorado por ti
pode caminhar sem chão
e ainda assim criar mundo.
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