[Sabe o quanto sou feia?]
Sabe o quanto sou feia?
preguiçosa, vagabunda, ruim,
invejosa, cruel, antipática e apática?!
Como sou um verme fracassado
na existência cósmica!
Minha feiura é a de um demônio
que qualquer kakodeimono
pode extinguir.
Fuleira e mesquinha,
trambiqueira e lascívia,
pronta para gozar em qualquer pretexto,
sentidos que me pareçam válidos,
como se fossem paixões,
filosofias profundas,
até o próximo acordar.
Esse sempre vem.
Acho que a culpa é do amanhã,
não minha!!
O êxtase não deve ser parceiro do amanhã.
Mas minha beleza —
essa sim é má!
Ela fere antes mesmo do cosmos existir,
tão bela e má,
filha do Caos sem fim.
Mas esse belo não tem como régua o humano
e sua trágica moral.
É serpente rasteira,
que conhece o útero vazio
e a falta sedentária.
Tão bela e silenciosa
que pode transformar arrotos e flatulências
em best-sellers da cultura.
[Aceitação do manto / rito ontológico]
Acho que não sou uma pequena vilã.
Sou mais — medíocre, burra, sem um pingo de inteligência.
Burra, burra — o rótulo do consenso geral.
Epistemicamente tardia: chego depois do gesto; só entendo o mundo quando já o pus em movimento.
Tão burra que só percebe os fatos depois dos atos.
Agora sei da minha mediocridade; não fujo de vestir esse manto.
Resigno-me ao fato e tento não me tornar inteiramente ele — apenas mais um manto entre os que colecionei.
Mesmo aceitando esta versão, não a faço absoluta: há tantas outras que não se desprenderam de mim.
Imagino-me caminhando ao kaos, ofertando a cada uma, e ficando, talvez, só com o que em mim é consciente.
Mas não falo do mundo material quando digo isso — falo de travessia ontológica.
No rito, o kaos dissolve vestes; a Consciência — eu a suponho essência cósmica — resta como testemunha.
A Burrice, então, deixa de ser sentença para virar personagem: chama-se Burrice e pode comandar — ou ser comandada.
Escrevi para isso: para tornar o manto nomeável, hipostático, para que exista fora de mim e eu possa dialogar, rir, expulsar ou oferecer.
Não mais: “sou burra” como autoacusação.
Agora: conheço a Burrice tão bem que posso colocá-la diante de mim como comandante separado.
Entregar ao kaos não é abandono moral; é gesto escatológico-ontológico.
Se permanecer algo depois do rito, que seja a Consciência — não a culpa, não o peso, apenas a lucidez que vigia.
[Daemons, invocação e assunção]
É curioso que os daemons tragam virtudes, riquezas, sabedoria. Se são traços nossos refletidos no cosmos, deveriam trazer à tona o mal que nos constitui.
Belzebu ou Lúcifer são evocados em troca de favores fenomênicos; mas, se o ato é ontológico — gesto é constituição — então o que se invoca é a assunção do demoníaco global, inteiro. Serás capaz de dominar ou será dominado?
[Nihilismo / desejo do Nada]
Por que eu não enlouqueço de vez?
Existir é o fardo do tédio rotineiro que leva a um fim sem finalidade.
Por que se quer tanto existir?
Colecionar estantes de dores sem significado?
A loucura parece cura para essa ordem justificada pelo Irreferencial!
Melhor ainda não ter que haver — sem nada, sem fardo tedioso de dia após dia, rumando ao fim e, pior, sabendo disso.
Nada é o que quero ser!
[Auto-revelação final]
E então me descubro um demônio carcomido!
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