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Mostrando postagens de janeiro, 2025

Anatema

Rastejante, à espreita nas sombras e na luz, Ludibriando o joguete de seus contrastes. Eis-me aqui: Profana Sagrada, feita de fogo e silêncio, Oferecida não a deuses, mas ao abismo que os criou. Não me amaldiçoam, pois sou já dedicada, Eis-me aqui, Eternamente a serpentear na furta-cor, Que jaz das suas emanações entrelaçadas. Eis-me aqui!

Nada é, eu sou

Existe um lugar dentro de mim que parece comigo. Me dá um confortinho. Mas um conforto... um conforto quase materno. Lá não há confronto algum. Não há repressão. Não há por que fazer. Não há por que se preocupar por deixar de fazer. É um conforto que simplesmente se passa. É uma segurança... que me empodera. Uma segurança de que nada é. E isso me expande... para todo o universo. E sabe, não há o conflito de "nossa, você está confortável, precisa se melhorar." Não. Eu já sou tudo o que tenho que ser. Eu adoro esse lugar.

O meu Diabo

É um cara massa! Sabe se divertir, mas está sempre na espreita, à espera de atacar os incautos miseráveis e suas belas virtudes. Não tem nada de abominável. É tão lindo, seja qual avatar usar: o de amar e o de assustar, o de matar e o de curar. Atrozes são as bestas rastejantes, suplicantes ou delirantes, destituídas de vontade própria, perdidas na névoa de suas ilusões. O meu Diabo, é gente finíssima!

Lendo viceras fluidas

Falemos de insetos, plantas e répteis: Para mim são signos vivos que se comunicam comigo. Minha eurocentricidade sabe máscarar  o diálogo, mas de algum modo ancestral, atavico, a troca , a barganha, o dom flui. Não sou da terra, sempre fui urbana, mas os signos falam além da cultura e me parecem desenhados como estampas em camisetas.  Não que os veja nos pop da vida, eles surgem vivos em cima da cama, sobre as portas, rastejantes e voadores. Baratas avermelhadas cruzando meu caminho. Lagartos em buracos em baixo do tanque de lavar roupas, bruxas encerrando ciclos na porta do meu quarto. Saber ler as viceras fluidas da imanência é se desalojar do razo da existência e em alguns instantes tocar um ato de divindade.

A Força

 Tudo o que existe, tudo o que está, é força se autoafirmando. Mesmo diante de adversidades, o que se expressa não é ausência, mas uma manifestação diferente dessa força, adaptada às condições do momento. Como a formiga que segue em frente com uma perna arrancada, como a ave que luta para voar com a asa ferida, ou como uma pessoa com deficiência que afirma sua existência no mundo — todos continuam sendo força, justificando-se por si mesmos, sem depender de uma moral humana. A força não se anula; ela se transforma, se ajusta. Um rio, ao encontrar uma rocha, não cessa de fluir. Ele a contorna, molda-a com o tempo, mas segue sendo movimento. Até o pensamento humano, que tenta conter ou redirecionar a força, é ele próprio uma expressão dela. Mesmo a repressão, o controle ou o direcionamento para propósitos não anulam a força; são formas dela se manifestar dentro da consciência, como se encontrasse novas maneiras de fluir. Nada no mundo escapa à força. A vontade, o desejo, a existência ...

Espírito

O que há de mais importante para a vida que não fluir na direção do seu desejo imediato de manter-se em vida. As meras sençassoes que  de um instante ao outro que propagam nas terminações nervosas Uma única coisa real; osmeostase. Que diriam os arautos da elevação moral?  Que há um propósito transcendente, que nos guia a algo bom e belo. Mas tirando tudo o que é signo e significado a vida deseja vida, nem que para isso a vida morra. Aquele desejo intrínseco de uma célula por osmeostase é a própria vida se desejando. A vida mesmo só sabe desejar e o espírito nasce  Quando esse desejo , da alma do mundo, chega  a doer nos filamentos da carne. Quando se descobre desejo desejante e ama-se o que é, pois amar- se é o desejo a desejar mais desejo, único real de todas as coisas. Fusão de forças a se transformarem. O espírito se dá nessa interface, amando o denevir, pois é só que pode. O ente auto gerado não é consciência, pois essa está em todos os lugares, esse ente é o des...

A espada gerada do caos

Empunho a espada da verdade, Das línguas que correm soltas no ar. Faço delas a história que a realidade, No tempo, há de gerar. O receio e o medo são duendes doentes, Empregados na crosta da alma, Que não pode as línguas aéreas Manipular com calma. Diante de todos, um tribunal artificial, Ajusta as metas do que deve ser o ser, E de como, no devir, pode melhor florescer. Mas a espada da verdade está ligada ao âmago, Que se explica na própria geração, Pois nela não há batalhas, Só vitória e eterna consagração. Ela abrange tudo, domina, é essência, Apesar de todos os pesares, Cada vez tem sido menos os males. Eu roubo a minha espada e a empunho com vontade, Sem revolta, pois a revolta, É brincadeira criancíssima, uma timonha, Ou até mesmo imbecilidade. Minha espada reina no cubo dos espaços, E, pelo próprio espaço que é, Manifesta o verbo inteiro. Sem esforço, sem nada, É essência do verbo, Daquele que veio E há de tocar a tudo. Gerada do caos a se abrir.

Tarô: Entre a pragmática e a complexidade simbólica.

Tudo começou quando surgiu o verbo: o ente que se comunica transmite um significado abstraído de signos com os quais teve contato. O ente que recebe esse significado faz analogias com os signos a que ele próprio teve acesso e, assim, abstrai novos significados. Esse processo se estende desde os desenhos nas cavernas até a construção de computadores quânticos. À medida que ganha complexidade, a simbologia cria sistemas de crenças que são convencionados em uma coletividade. O tarô pode, então, ser entendido não apenas como uma ferramenta de significados místicos que emergem de outras dimensões, mas como uma construção cujas análises partem dos signos e significados acumulados por milênios de complexificação. Ele é resultado de emergências singulares e convenções baseadas em analogias. A estrutura da linguagem ocidental está implícita nos arcanos, que, além de guardarem mistérios, incorporam linhas representativas que moldam nosso modo de pensar. Por isso, seu uso prático é eficiente: as ...

Cientes

Num serpentear, oscila a lógica dos cientes, oscila entre extremos infinitos, que, tão infinitos, são um só. O caminho da água é moldar-se no trajeto. O caminho da terra é purificar, dando em gás. O caminho do ar é combustão para o fogo inflamar. Mas existem tantas lógicas, tantos reinos, que um pequeno vislumbrar mostra que os cientes são apenas um trechinho desse gozar.

Caldo de nada

Por que realizar qualquer ação se temos a ilusão de que ela traz resultados na realidade? Todas as direções levam ao nada e, no nada, permanecem atemporalmente. Tanto desejo e tantas buscas desembocam em uma contínua linha que não tem fim, propósito, fundo ou limite, sem dimensões ou proporções. Um caldo de nada, mexido por nada, que nada gera além de si mesmo. Se eu ficar parada, bem quietinha, será que deixarei de perceber a diferença entre esse caldo e mim mesma? E, enfim, sem direção, resultados ou propósito, tudo o que me faz ser eu se tornará indistinto no nada, numa paz sem fim? Pensar na ação como lidamos com o mundo me lembra Sísifo a rolar sua pedra: um esforço incessante que parece não levar a lugar algum. No entanto, e se o propósito não for o destino, mas o próprio ato de rolar a pedra? Talvez o fluxo da existência não exija resultados, mas presença. O pensamento mágico também carrega um paradoxo fascinante quando refletimos sobre o ser e o não ser. A magia busca a d...

Libação

Não sei se toda mulher sente isso, mas é uma vontade de parir! De jogar fora do seu corpo, as vezes a menstruação satisfaz... As vezes , não, e ficamos interrompidas, como prestes a vomitar pela vagina, e é uma espera que se cumpre por si só. Nem homem, nem orgasmo, nem nada só o momento de expelir o suco das entranhas, assim é a libação sagrada que artimanha os fluxos da terra na geratriz dos homens.

Assim falou Dandara

Dandara: É tudo uma fantasia ridícula, de gente se fingindo para caber no meio. Até parece bonitinho, mas, amigo, veja de perto: a podridão está por baixo das aparências de salubridade. Se ainda acha feio, tenha coragem de ver os viscos que escorrem das amarras onde a boa família se emaranha — meio que por imposição, meio que porque sou parte disso. E é normal.

Ardil

Não procuro a salvação, e vejo as coisas dessa vida cruéis e lindas como são. O que procuro é o desejo ardendo, em tudo. Sinto que preciso saltar, abandonar, ir junto ao encontro a esse desejo de desejar. A luxúria não é um pecado, o pecado é desejar e negar. Amantes se perdem no consumição ardilosa que a besta propôs, mas sejamos nós inventivos: bestas a propor o real. Onde se ampara o seu desejo? Falo do desejo que nenhum fluxo te rouba a direção. É nele que arde seu espírito ainda a devir.

O Devir-Mulher: O Fluxo Essencial do Ser

Em muitas correntes filosóficas, o conceito de devir é central para entender como a vida, o ser, a matéria e o espírito estão em constante movimento. O devir é o processo de transformação, mudança contínua, que nunca se concretiza em um estado final ou estático. Mas e se, ao pensarmos sobre o devir, pudermos também questionar o que está se transformando, como ele se origina e, principalmente, de onde vem essa força transformadora? Quando exploramos o devir-mulher, como o entendo aqui, não se trata apenas de uma mudança fluida, aberta e indefinida, como nos propõem Deleuze e Guattari. O que está em jogo não é apenas um movimento sem forma ou uma transição indefinida, mas uma essência primordial, que se conecta diretamente com a própria base da vida humana e natural. O devir-mulher não é apenas um potencial de transformação, mas a própria força vital, a energia que mantém os seres e suas relações em continuidade. A mulher, nesse devir, é a representação dessa força unificadora, um elo es...

Matriarca

O papel da mãe é armar o cenário, fazer a fantasia ter sentido. É uma magia cruel, mas também essencial e pertencional. Ela é o elo, a cola que une os cacos das personas representadas. A matriarca pode ser tanto o cimento que sustenta quanto a areia movediça que consome. Na arena, ela circula incessantemente, lidando entre os elos e a cultura, transitando entre a tradição herdada e as novas possibilidades, adaptando-se e costurando significados para manter a conexão no meio do fluxo constante.

Presépio de transeuntes

Eu sou um anjo caído, filho de Eva. Minha dignidade suporta os filhos de Adão, mas é cruel para mim e para eles o diagnóstico: miscigenação. Sou de uma moral primordial, avessa à cultura, parecendo cruel, mas apenas refinada. Ai dos anjos caídos nesta terra animal! Eles a conhecem, mas não se misturam, pois, de Sophia, ardem em pura sabedoria. Atavismos pertencem ao espírito: o animal é uma trama de instintos entrelaçados, sem geometria, uma pura aceitação dos reveses do ambiente, sem traço de criação. Atavismos refletem a sombra que Sophia lançou na anima mundi, para que se reconheça o presépio de transeuntes.

Entre Daat e Yesod, Maat

  No abismo onde tudo se dissolve, Daat desponta como ruptura inevitável, a aniquilação do ego, o silêncio do "eu", um portal para o caos irreversível. E lá está Maat, não como moralidade, mas força cósmica, equilíbrio que dança no fio do caos e do cosmos, sustentando o ciclo eterno do ser. Em Yesod, Maat também se revela, abrupta, desestruturante, quebrando as correntes da percepção linear, não menos feroz que em Daat. Mas há o Rébis, o caminho gradual, preso à perspectiva, uma subida que ainda pertence às formas, à ordem que reluta em se desfazer. Maat, porém, transcende. dela se chega ao círculo cujo centro está em todo lugar e cuja circunferência é em lugar nenhum. Acessá-la é entregar-se ao infinito, onde tudo é ruptura, criação e retorno.

Maat e Rébis

Maat é uma força cósmica, não uma simples princípio moral, e ela pode ser acessada tanto em Yesod quanto em Daat. Quando acessada de qualquer uma dessas esferas, Maat se manifesta de forma disruptiva e não linear. A diferença entre os dois acessos está no ponto de perspectiva do ente que está acessando. Quando se acessa Maat a partir de Yesod, o processo não é gradual, é abrupto, pois implica uma ruptura com os sistemas de relação e a estrutura de percepção. Esse acesso está em contato com a potencialidade da criação e, portanto, é transformador, mas de uma forma que não segue uma linha contínua, mas sim uma mudança radical de consciência. Por outro lado, o caminho do Rébis, acessado também a partir de Yesod, é mais gradual, ainda mantendo uma perspectiva de dualidade e relação, sem a ruptura imediata que caracteriza o acesso direto a Maat. Isso é, a jornada pelo Rébis é uma ascensão ou integração mais fluida, presa ainda a uma perspectiva estruturada da realidade. A chave aqui é que a...

O Abismo da Criação: O Caos, Atoum e o Olho de Lúcifer na Jornada da Autogeração

O processo criativo reflete a sexualidade primordial e a manifestação, onde o caos profundo se entrelaça com a criação de novas formas e realidades. Da potencialidade pura — o Sol Negro — irrompe a manifestação mais essencial: Atoum, o auto gerado, que emerge desse abismo para dar origem à criação. Essa visão une o caos e a criação ao ato sexual, onde a energia primordial, direcionada pela consciência, revela a força criativa que gera o novo. A fragmentação que acontece no processo criativo é a queda de Lúcifer, uma ascensão invertida, onde a descida ao abismo não é fim, mas começo de uma jornada de autogeração. O abismo é o espaço sagrado da criação — o lugar onde tudo emerge, onde forças primordiais se encontram sob o olhar da consciência, tornando-se capazes de gerar o novo. A queda de Lúcifer não é perda ou condenação, mas a metáfora da quebra e da reinvenção: a transformação da fragmentação em totalidade, o retorno ao inteiro. Nesse movimento, a criação é o fluxo contínuo da uni...

Singela liberdade, não mera rebeldia

  Entregar-se ao niilismo não é um ato de rebeldia, mas a forma mais singela de liberdade. É navegar por entre os mundos sem a necessidade de se fixar em nenhum. É o ar mental que se renova a cada inspiração. É a água que flui sem resistências. É o fogo que Entregar-se ao niilismo não é um ato de rebeldia, mas a forma mais singela de liberdade. É navegar por entre os mundos sem a necessidade de se fixar em nenhum. É o ar mental que se renova a cada inspiração. É a água que flui sem resistências. É o fogo que arde em pura combustão. É a terra que alterna entre a umidade e a secura no curso de seu ciclo. É a aceitação plena dos contrastes vibranvtes que a existência apresenta, sem apego, sem oposição. As paixões, então, assumem outro sabor: o da apreciação desinteressada, livre de posses. Esse movimento, eu diria, é o amor em sua forma mais pura. Ele busca o gozo, a energia, nunca se submetendo, mas expressando sua liberdade em cada ato, em uma incessante busca por mais e mais amor. ...

Irreversível

Aumentar a potência para gerar gravidade, e direcionar os fluxos para gerar ainda mais potência.  Não quero ser uma eremita... Mas da onde estou não há volta!  O niilismo pode ser um elixir para desfrutar dos fluxos  e interações numa posição de controle ao invés de reativa.  E não tenho como fugir do fato intrínseco das perspectivas serem isoladas,   isso é uma prepotência adquirida e irreversível na minha mente atual.

O Feminino Primordial e o Sol Negro: O Potencial e a Manifestação

O Sol Negro representa a potencialidade pura e imanifesta . Em muitas tradições, é considerado o caos primordial ou o vazio criativo — aquele estado que precede a criação de todas as coisas. Esse caos não é apenas a ausência, mas sim o princípio feminino que contém, em si, todas as possibilidades, sem ainda estar manifestado . Ele é o campo de todas as potências, mas ainda sem forma, uma energia criativa não diferenciada . Essa energia primordial é feminina , pois a manifestação — o ato de dar forma ao que está potencialmente presente — é um atributo tipicamente associado ao feminino. O feminino não é apenas passivo, mas criativo , gerador . Ele abraça e cria , sendo o vaso que permite que a potencialidade se manifeste em formas variadas. Atoum: A Manifestação da Potencialidade Quando falamos de Atoum , estamos nos referindo à manifestação auto gerada . Aqui, o princípio masculino entra como o princípio ativo , gerador da forma a partir do caos primordial. O masculino não es...