A percepção não é captura nem representação.
Ela é um gesto relacional: um entre que se forma no próprio ato de existir.
O mundo não se apresenta pronto para ser visto; ele se co-produz no movimento da percepção.
Cada ser, em qualquer grau de organização, realiza essa relação de modo próprio.
A planta que se inclina para a luz, o animal que ajusta seu corpo ao fluxo do ar, o humano que acompanha o pulsar de uma situação — todos estão inferindo o devir de sua situação, ajustando-se às intensidades que os atravessam.
Esse ajuste não é dedução: é sintonia com o campo de diferenças, é gesto de equilíbrio que traduz movimento em presença.
O movimento é anterior à forma; a percepção é o modo pelo qual o ser estabiliza partes do movimento em relação; o espaço surge apenas como traço residual dessa operação — como o eco de relações que se fizeram forma perceptível.
O salto ontológico consiste em reconhecer que perceber é co-gerar o mundo.
O sujeito e o objeto não existem separadamente: surgem juntos, em um contínuo de relações.
A inferência é a modulação desse contínuo, a forma pela qual o ser ajusta-se ao devir que o atravessa.
Toda percepção é, portanto, ato de criação, e não de mera recepção.
O mundo se manifesta no instante em que o ser se dispõe a relacionar-se com ele.
O espaço, a forma e até mesmo a distinção entre interior e exterior são apenas efeitos dessa relação, e não fundamentos prévios.
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