Pular para o conteúdo principal

Variações sobre o mesmo tema.

 Variações sobre o mesmo tema. 


O trágico é entender-se contido em algo fixo: sempre o mesmo gesto, o mesmo rosto, a mesma cor. Uma única nota soando no vazio. Mas isso não pode ser o Ser. Isso é Deus, acéfalo, incapaz de consciência, uma tonalidade sem distinção, figura que nossa semiose e nossa semântica inventam para dar forma ao informe.


O Ser, porém, é mais que Deus. Pois não é fixidez, mas movimento; não é Uno, mas variação. Ele pode perambular entre as formas, atravessar sintonias, compor e dissolver frequências.


Nas trevas exteriores ao cosmos, fora da ordem de signos e sentidos, vigora a alógica, onde nenhum fundamento se sustenta. Ali, qualquer ser é possível, sem que precise nascer do Uno. O mito do Uno, de que tudo se desdobra a partir dele, é apenas artifício da semântica; sua pretensa soberania se desfaz diante da alógica.


Assim, Deus é deposto. E o Ser, imperando sobre o campo alógico, mostra-se soberano: não como derivado, mas como potência que se abre ao possível, infinita em variação.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Devir-Mulher: O Fluxo Essencial do Ser

Em muitas correntes filosóficas, o conceito de devir é central para entender como a vida, o ser, a matéria e o espírito estão em constante movimento. O devir é o processo de transformação, mudança contínua, que nunca se concretiza em um estado final ou estático. Mas e se, ao pensarmos sobre o devir, pudermos também questionar o que está se transformando, como ele se origina e, principalmente, de onde vem essa força transformadora? Quando exploramos o devir-mulher, como o entendo aqui, não se trata apenas de uma mudança fluida, aberta e indefinida, como nos propõem Deleuze e Guattari. O que está em jogo não é apenas um movimento sem forma ou uma transição indefinida, mas uma essência primordial, que se conecta diretamente com a própria base da vida humana e natural. O devir-mulher não é apenas um potencial de transformação, mas a própria força vital, a energia que mantém os seres e suas relações em continuidade. A mulher, nesse devir, é a representação dessa força unificadora, um elo es...

Filosofia do Irredutível

Não se trata de escolher um fundamento. Trata-se de negar tudo o que tenta ocupar esse lugar até que reste apenas o que não cede. Não é a negação como recusa. É a negação como operação. Linguagem não escapa. Se se diz que é limite da linguagem, ainda assim se diz. Silêncio não escapa. Se se apela ao silêncio, ele comparece. Indizível não escapa. Se se invoca o indizível, ele insiste como limite. Nada disso suspende. Nada disso retira o problema. Tudo isso já está no haver. Não para uma mente. Não para um sujeito que percebe. Para que haja qualquer mundo. Não há um “para quem” anterior a isso. Então não é questão de dizer melhor. É questão de não poder evitar. Há. Não como coisa. Não como ente. Não como conceito que se sustenta por si. Mas como impossibilidade de não haver. Tentar negar isso não falha. Não chega a se sustentar como tentativa. Porque a negação já opera no haver. E essa impossibilidade não é inerte. Ela não permanece muda sem consequência. Não se sustenta um haver absolut...

Quero

Quero que me ame de forma de forma sobrenatural, que sobrepuje as convenções  morais,  que inflija as leis naturais,  que ultrapassarmos organismos mortais. Quero somente a ti! Do instante passado não me esqueci, no cérebro conservar-te,  com o corpo afagar-te Quero luxúria explícita! Filha dos desejos seus,  dono dos desejos meu,  carrasco do corpo meu. Quero tempestade e bonança!  Dar-lhe júbilos em abundância,  ser sua única esperança, e em seu sacrifício morrer fustigado.