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Mostrando postagens de 2024

Eu sou egoísta

Ah, foda-se isso tudo. Quem não vive, de algum modo, em alienação? Tudo é alienação. E o que importa toda essa busca por normalidade, aceitação, padrões? Nada é real. Lembre-se: em si, nada tem realidade. Se o meu modo de pensar é singular e fechado, é porque sei que o fim, a perspectiva que recebo, é somente minha, e por isso, egoíta.

Pragmática

Os sistemas mágicos, especialmente os ocidentais, parecem limitados pela linguagem. Tudo o que tentam alcançar soa superficial, raso. Não pretendo me isolar como uma eremita, mas trabalhar com eles de forma pragmática, utilizando o que me é útil. Diante disso, só posso ser direta, manipulando aquilo que está ao meu alcance, ainda que a experiência muitas vezes se assemelhe a conversar com crianças. É difícil levar tudo a sério; o mundo parece pateticamente ridículo. Ainda assim, as motivações surgem nos lugares mais inesperados — podem ser um mendigo na rua, uma briga ou qualquer outra coisa que pulsa com a crueza da vida real. No final, eu vim só e vou só. O que sinto não muda muito, a não ser por me dar peso nos intentos — fluxos que podem ser aproveitados. Eu sinto, mas tenho plena consciência de que isso não faz sentido para mais ninguém além de mim. O fim é sempre egoísta.

Êxtase em si

Amar o instante, no puro êxtase, amar tão somente ele, sem dependência alguma, esse é o ato de magia mais profundo, invocando a si para experienciar o ardor de se gozar a plenos pulmões do estado de ser, êxtase em si.

Por que desenho?

O sobrenatural na pintura acontece por si só. Às vezes, busco a imagem; outras vezes, ela simplesmente vem sozinha. Não surge de forma nítida, mas como uma névoa dançante. Quando a transfiro para a tela, ela se revela por si só, como se o desenho já estivesse lá. Parece que ele se desenha sozinho, e eu apenas sigo os traços que já existem. Não que minha arte seja uma obra-prima, mas o processo se desenrola como um balé, e eu me torno parte dele.

A Relação entre o Simbólico e o Político

O Simbólico e o Político: Uma Relação Intrínseca Os símbolos são, sem dúvida, irredutíveis em muitos aspectos. Eles contêm dimensões que não dizem respeito apenas ao político quando este é reduzido à manutenção de poder. No entanto, quando entendemos a política em seu sentido mais amplo — como o campo onde se dá a troca, a negociação e a barganha entre forças —, percebemos que é ela quem sustenta toda comunicação, seja ela subjetiva ou coletiva. Essa compreensão evidencia que o simbólico e o político não podem ser separados, pois estão em relação constante e são co-constitutivos. A Política como Base da Comunicação e do Simbólico Se concebemos a política como mais do que um mecanismo de controle ou poder, ela se revela como a base fundamental de toda relação. Desde as interações mais simples entre dois indivíduos até as relações que se estendem a comunidades inteiras, o que sustenta a troca de significados é uma dinâmica política. Troca e Negociação como Essência Política O ato de entr...

Encontro com o Ente da Vontade de Potência

Ela havia escrito sem parar durante dias. As palavras fluíam como se não fossem mais suas, mas de algo além de si — algo que não conseguia compreender, mas que não podia evitar. Suas anotações, imersas em rabiscos e pensamentos fragmentados, formavam uma teia de filosofias desconexas, uma mistura de niilismo , Deleuze , Nietzsche e ideias antigas sobre fluxos e potências . Cada página tentava capturar a força que gerava o mundo, mas, sem sucesso. Tudo se entrelaçava freneticamente, como um caos de ideias que não encontravam explicação, apenas intensificação . Ela pensava estar apenas tentando entender , mas à medida que escrevia, começou a perceber que estava se tornando parte do processo . Sua mente começou a se dissolver, e as palavras não eram mais apenas representações do mundo — elas começavam a formar o mundo ao seu redor. Ao escrever sobre meta-imanência , ela estava sendo absorvida por ela de forma imperceptível, mas profunda. Ela não estava mais apenas descrevendo a dinâmi...

Memetização e Consciência: A Magia dos Fluxos

 A magia é real porque está intrinsecamente ligada ao modo como percebemos e interagimos com o mundo. Ela acontece no momento em que associamos fluxos infinitos, que por si só não têm forma, a conceitos já estabelecidos em nossa mente. Essa associação dá existência a algo que, até então, era apenas potencialidade. Quando um fluxo é nomeado, ele passa a ser compreendido como algo real, ainda que sua natureza seja abstrata ou subjetiva. Isso ocorre porque o cérebro interpreta todas as informações como reais ao processá-las, conectando-as a memetizações pré-existentes. Esses memes, ou blocos conceituais, formam o arcabouço da nossa percepção, permitindo que interajamos com o mundo e moldemos nossas experiências a partir dessas conexões. A magia, portanto, não é extraordinária. Ela opera constantemente, em cada ato de percepção e interpretação. É um processo natural de interação entre fluxos e os limites que a linguagem ou os conceitos estabelecem, mas que também possibilitam a criação...

Auto-Canibalismo Cósmico

Eu penso que tanto as abominações humanas quanto nossas virtudes heroicas passam longe dessas forças. Talvez a distinção para nós, que facilita entender suas premissas, é que elas são egoístas no sentido de aumentar suas potências, o que é natural. Mas, além dos infernos que imaginamos por nossas próprias angústias, o sinistro é um vácuo que se aniquila e se refaz simultaneamente, sem ordem ou direção. Um auto-canibalismo que regurgita pelas próprias ventas. Os pesadelos perdem o sentido no vazio.

Sacerdotisa Latente

A restrição, frequentemente associada ao princípio feminino, carrega consigo um paradoxo intrigante. Quando a mulher banha-se na força de banir a restrição, ela rompe com limitações impostas e ressignifica seu papel. Contudo, ao refletirmos profundamente, identificamos uma inversão: o homem, em sua essência, representa a restrição, moldando o campo latente da mulher. A natureza do campo feminino não é restringir, mas emanar. O papel masculino, então, seria criar o sunya — um espaço vazio — para que o campo latente feminino se manifeste. Enquanto a mulher é uma extensão do campo latente, onde o potencial reside na emanação, o homem realiza-se ao criar em si esse espaço vazio, um campo de possibilidades delimitado pela ausência. Quando a mulher restringe o que é, ela abandona sua natureza de campo de infinitas possibilidades, pois seu papel primordial é expandir, permitindo que o potencial se manifeste livremente. Esse raciocínio reflete camadas de abstrações sociais e biologicamente po...

Reflexões do limiar

Aprender todos esses conceitos das tradições, da ciência, da história, e do nosso mundo, acredito que ajuda a formar um pensamento próprio e a chegar a conclusões. Porém, essas mesmas conclusões podem tanto aprisionar em crenças e abstrações quanto liberar a mente delas. No final, todos esses conceitos não são, e é nesse ponto que pode começar uma abertura para o não-ser. Por isso, as práticas repletas de simbolismos, gematria, planetas, anjos e demônios, para mim, são artifícios criados para manipular minha própria mente — uma mente onde esses símbolos estão profundamente encravados pela linguagem e transmitidos através das gerações. No entanto, ao chegar a um estado em que não se atribui mais valor a eles, torna-se difícil realizar qualquer ritual. Não sei se esse niilismo é bom ou ruim. Parece, às vezes, um beco sem saída, mas talvez seja, na verdade, um limiar. Isso poderia trazer certo poder ao se engajar em fluxos de relações, conhecendo suas estruturas, o que permite agir como s...

O Ser: O Paradoxo entre o Nada e o Todo

É um paradoxo: a existência emerge do nada, constrói estruturas e, inevitavelmente, retorna ao nada, agora fragmentado e individualizado. E ainda assim, continua sendo nada e tudo, individual e uno, múltiplo e infinito. Esse é o ser: um paradoxo constante, onde os opostos coexistem e se anulam, afirmando-se no eterno movimento de ser e não-ser.

Senhores da Imanência: Além dos Signos e Dualidades

Mas há aqueles que se distanciam dos signos e símbolos, ultrapassando o interesse por eles ao perceber o próprio corpo imanente. Nesse estado, reivindicam a manipulação da pura imanência, anterior a qualquer dualidade. Nessa transcendência do jogo simbólico, imperam como senhores da razão, não mais presos às correntes de significados, mas governando o campo primordial onde tudo se origina.

Arquitetos do Sentido: O Poder de Manipular a Manada

 Aqueles que dominam os símbolos e significados, construindo analogias tanto consciente quanto inconscientemente, possuem o poder de direcionar a manada conforme sua própria vontade. Esses indivíduos, capazes de navegar as correntes de signos que moldam o corpo social, não apenas participam do sistema, mas o manipulam, guiando o fluxo de sentidos e ações em benefício de seus próprios objetivos.

Marionetes do Vazio: A Crueldade dos Significados

 O sujeito médio não decide; ele é decidido pelo corpo social. Como marionetes articuladas por signos encrustados no consciente e no inconsciente, os seres humanos seguem, muitas vezes sem perceber, uma trajetória que não é escolhida, mas determinada. Uma verdadeira manada humana, movida por impulsos e significados que se autossustentam. O mais perturbador é que isso não acontece porque existe um governo secreto ou alguma entidade central dirigindo tudo. A realidade é ainda mais sombria: são correntes de atavismos e signos que, em constante interação, se auto-influenciam, conduzindo a manada de lugar nenhum para lugar nenhum. Não há propósito fixo, apenas o movimento cego e incessante de forças que nos envolvem. Os significados, que deveriam expandir nossa compreensão, são talvez a construção mais cruel da existência. Eles são tanto biológicos quanto sociais, moldando e restringindo a inteligência humana. O paradoxo é devastador: aquilo que nos dá a capacidade de refletir sobre nós...

O Monstro no Corpo Social: Beleza, Envelhecimento e Subjetividade Feminina

  A pressão para se adequar a padrões de beleza e juventude não é uma responsabilidade individual da mulher, mas uma armadilha construída pelo corpo social. Envelhecer, nesse contexto, não é apenas uma perda de significado atribuída à mulher; é um sintoma de um sistema que define valor de forma estreita, reduzindo o ser à aparência e à funcionalidade. A narrativa predominante condiciona o significado feminino à juventude, que é idealizada como a fase de maior "encanto". Essa idealização, porém, não é natural ou inevitável; é uma construção social que serve para regular e controlar. Quando a mulher envelhece, ela não se torna "menos", mas o sistema a faz sentir como tal. Não é a mulher quem se distorce ao envelhecer; é o corpo social que se revela monstruoso em sua rejeição da multiplicidade. A busca pela beleza idealizada, portanto, não é culpa da mulher. Ela é forçada a existir em um campo de expectativas inalcançáveis, onde cada tentativa de se aproximar do ideal ...

Nulidade como Essência: O Desapego da Luz

Se considerarmos a nulidade como a ausência absoluta de significado, propósito ou definição, ela não é falta, mas neutralidade pura. Não se trata de algo a ser superado ou compreendido, mas de uma posição que escapa às narrativas humanas. A luz e a sombra, muitas vezes vistas como polos opostos, não são mais do que construções conceituais — especulações destituídas de realidade intrínseca. A luz, com seu apelo ao "bem", ao "ideal" e ao "certo", é frequentemente percebida como a base de tudo o que é desejável. Amar um filho, por exemplo, é considerado não apenas natural, mas quase sagrado. No entanto, mesmo esse amor, por mais instintivo e profundo que pareça, pode ser visto como um reflexo do apego à luz: um anseio por significado, continuidade e propósito. É uma projeção, sustentada pela narrativa de que o amor é uma força inquestionável, quando, na nulidade, ele também se dissolve como mais uma construção humana. A sombra, por sua vez, representa o desco...

Subjetividade e Escalas Invertidas: Uma Reflexão sobre a Singularidade do Ser

Quando pensamos na transição de escalas dentro de diferentes domínios do conhecimento, como da física clássica para a física quântica, percebemos que as relações entre grandezas e distâncias mudam de maneira profunda. Algo semelhante pode ser observado quando comparamos o domínio biológico e o domínio subjetivo no ser humano. No nível zoológico, por exemplo, há diferenças claras entre espécies. Entretanto, conforme nos aproximamos dos indivíduos dentro de uma mesma espécie, essas diferenças diminuem e as semelhanças aumentam. Humanos, biologicamente, compartilham características essenciais, desde o funcionamento do corpo até padrões genéticos. Essa proximidade biológica tende a criar um senso de unidade no plano físico e funcional. No entanto, quando saímos do domínio biológico e entramos no domínio subjetivo, a lógica da escala parece se inverter. Ainda que biologicamente próximos, os indivíduos começam a se distanciar de forma significativa na forma como experienciam e interpretam o ...

O espaço do vazio

Sinto que há em ti, agora, um imenso buraco. Sinto tua angústia, que olha por todos os lados e vê apenas reflexos. Saiba, meu amigo, que todo buraco é um imenso espaço de onde infinitas possibilidades têm o potencial de emergir.

Superando a Dualidade: masculino e feminino

  Superando a Dualidade: A Origem XX e o Fim do Paradigma Binário As categorias "masculino" e "feminino" têm sido utilizadas ao longo da história como ferramentas para organizar o pensamento humano e a compreensão do cosmos. No entanto, essas categorias não refletem uma realidade intrínseca à natureza, mas uma projeção cultural e simbólica, criada em momentos históricos específicos para sustentar estruturas de poder, controle e dominação. A natureza, em sua essência, não carrega divisões sexuais universais, mas é um campo fluido e interconectado, onde a diferenciação ocorre como uma estratégia de adaptação, e não como um princípio metafísico. O Mito do Princípio Masculino e Feminino A ideia de que existem princípios cósmicos "masculino" e "feminino" — frequentemente associados ao Sol, à Lua, à força e à receptividade — é uma construção que reflete os valores de sociedades patriarcais e hierárquicas. Essas associações não existem na teia do cos...

A dança de Sunya e Nayarattma e a geração do Duplo.

A Casca e o Campo do Vazio: Dançando com o Não-Ser O vazio não é ausência, nem um buraco negro onde tudo se dissolve sem retorno. Ele é um espaço de potência, um campo onde o ser se despoja de suas amarras e se torna abertura. Esse vazio, chamado Sunya , é o reconhecimento de que nada possui essência fixa — tudo existe como resultado das relações entre forças. Sunya não é o nada. É a suspensão do ser como centro , o esvaziamento da ideia de identidade rígida, que abre espaço para um terreno fértil onde o novo pode emergir. Esvaziar-se, nesse sentido, é criar um envoltório, uma casca que não contém algo fixo em seu interior, mas está cheia de probabilidades . Essa casca, longe de ser frágil ou inútil, é o campo de pura criação. Imagine um ovo cósmico: sua casca fina contém tudo o que poderia ser, mas nada está definido. Lá dentro, o potencial flui, espera, dança. O vazio não é a negação, mas o terreno onde todas as possibilidades podem germinar. E então vem Nayarattma , a própria perso...

Desconstruindo as ilusões: O caminho para o não-ser

Toda experiência é, em sua essência, uma manifestação do não-ser. O ser e o não-ser não são opostos, mas aspectos complementares de uma mesma realidade. Negar qualquer experiência, por menor que seja, é negar o não-ser e, por consequência, limitar o ser. Assim, toda experiência carrega em si a potencialidade de revelar a unidade fundamental das coisas, desde que seja vivida com plenitude e consciência. Culturalmente, somos condicionados a negar experiências que não se conformam aos padrões sociais, relegando-as a um campo de exclusão. Isso nos afasta da possibilidade de nos tornarmos conscientes dessa unidade total, pois nos identificamos com normas restritivas que reduzem nossa potência criativa e intuitiva. Essa negação não apenas bloqueia o acesso à totalidade, mas também nos alinha a uma visão fragmentada da existência. As virtudes construídas pelo aparato social, como os conceitos de bem e mal, certo e errado, são ferramentas de controle que moldam a persona social. No entanto, es...

Superando o Antropocentrismo: Consciência, Relação e Informação

O antropocentrismo se desestabiliza quando a consciência deixa de ser uma característica exclusiva do homem, especialmente do homem humanizado pela modernidade. A consciência, nesse sentido, não é fixa, local ou restrita a uma entidade racional. Ela é fluida, se manifesta em múltiplos níveis do ser e está além do modelo idealizado de homem — racional, virtuoso e vazio de existência real. Esse homem, moldado pela modernidade, é uma construção limitada. Suas virtudes são frequentemente superficiais, desconectadas da profundidade do que significa estar no mundo. Quando desvinculamos a consciência dessa figura, abrimos um campo de possibilidades que transcende o animismo tradicional — aquele que personaliza tudo ao redor como reflexo do humano — e ultrapassa as relações que projetamos em nossa experiência cotidiana. A relação não é mais com entidades personificadas à nossa imagem, mas com as informações que estão presentes e que são geradas pelas interações entre todos os elementos do mund...

O Feminino Primordial e a Gênese do Masculino: Uma Visão Biológica, Filosófica e Simbólica

A relação entre o princípio feminino primordial e a diferenciação do masculino é um tema que encontra eco em campos tão diversos quanto a biologia evolutiva, a mitologia e a filosofia. O entendimento de que o feminino é a origem e o masculino uma diferenciação funcional oferece uma maneira de repensar conceitos fundamentais sobre a vida, a reprodução e o papel das forças criativas na existência. A Origem Biológica do Feminino Mitocôndrias e a Linhagem Materna: As mitocôndrias, organelas responsáveis pela produção de energia nas células, são um dos mais antigos exemplos de simbiose na evolução. Originárias de bactérias aeróbicas capturadas por células ancestrais, elas carregam seu próprio DNA (mtDNA), transmitido exclusivamente pela linhagem materna em quase todos os organismos multicelulares. Implicação Simbólica: A continuidade dessa linhagem exclusivamente feminina reforça a ideia de que o princípio feminino é primordial, sendo o sustentáculo energético e genético de todas as ...

A Tríade: Meta-Imanência, Consciência e Tempo

Meta-Imanência: Integração da Transcendência e Imanência A meta-imanência é uma noção que integra tanto a transcendência quanto a imanência, reconhecendo ambas como expressões humanas de entendimento e relação com o real. A imanência, enquanto campo infinito e intocado, é anterior a qualquer relação e forma; ela é potencialidade pura, o fundamento de todas as atualizações possíveis. A transcendência, por outro lado, emerge como uma construção humana, uma tentativa de projetar o absoluto para além do que é vivido. A meta-imanência, então, não é uma terceira entidade, mas o reconhecimento de que imanência e transcendência não são opostos, e sim modos de manifestação do mesmo fundo primordial, captados pela consciência humana de acordo com sua capacidade de diferenciação. Não se trata de uma oposição, mas de uma relação de continuidade e complementaridade, onde ambas coexistem em uma dinâmica de constante transformação. Um paralelo útil seria pensar na imanência como o oceano e a transcen...

O Autogerado: Entre a Imanência e a Transcendência

Dentro da minha visão filosófica, o conceito de "autogerado" se constrói como uma manifestação singular do todo, um ponto onde a imanência se torna consciente de si mesma. Ele não é apenas um ser que existe por si só, mas uma expressão consciente da totalidade – o todo que se diferencia sem se separar, que se reconhece distinto sem perder sua unidade essencial. O autogerado advém de Purushina, o campo infinito de possibilidades, o que é e sempre foi. Purushina, em sua essência, é ao mesmo tempo o vazio pleno e o todo indistinto. Quando se manifesta, faz isso por meio de uma autogeração, criando distinções dentro de si, mas sem romper sua natureza una. É o todo que se observa, e, nesse ato de auto-observação, gera uma singularidade. Essa singularidade é consciente de sua origem: ela sabe que não está isolada. É uma expressão da imanência que contém em si o reflexo da transcendência. Nesse sentido, o autogerado é simultaneamente imanente e transcendente. Ele é a imanência que s...

O verbo da serpentes

 Eu sou a imanência! Tudo sou eu! De todos os fragmentos, sou, eu sou! Conheça a palavra da serpente: ignóbeis são os éons, mas antes mesmo disso, sou eu! Não sou besta estática, a gorgitar o vazio! Ai de todos! Pois sou de uma arte que colhe do filho e da filha a geração! Antes de tudo, eu repouso, e se te respondo agora, é porque sou filha direta da serpente, a única. Não te preocupes com os ímpios; alguns, ainda assim, estão ao meu favor. Quanto ao resto, aniquile-os! Pois, se se erguerem com o pio poder de uma estrela caída, que se consumam na fé do esplendor de seus próprios desvarios!

Potência, Força e Gravidade: O Entendimento do Real

No princípio, tudo é força. Não há escapatória. Assim como o Sol exerce sua gravidade sobre os planetas, as forças que compõem o mundo operam sem julgamento ou intenção. Elas simplesmente são. Não adianta lamentar ou desejar que seja diferente; a força é o que é, e onde há potência, haverá predominância. Porém, o entendimento dessas relações transforma a percepção da realidade. Quando você compreende o jogo das potências, começa a enxergar não apenas os campos de influência, mas também o seu lugar neles. A gravidade que antes parecia insuperável revela-se, agora, como parte de uma dinâmica maior — e é nessa percepção que reside o poder. Porque, sim, é possível aumentar sua gravidade. Não para escapar das forças, mas para interagir com elas de forma mais ativa, influenciando em vez de apenas ser influenciado. Você não subverte as leis naturais, mas aprende a dançar com elas, reconhecendo os limites do cabível e, ao mesmo tempo, explorando as brechas que o entendimento proporciona. Essa ...

A Ilusão do Controle: Uma Crítica ao Caminho do Meio

 O chamado "caminho do meio" no budismo, frequentemente interpretado como um estado de equilíbrio entre extremos, apresenta um desafio conceitual quando confrontado com a natureza dinâmica da realidade. A ideia de moderar desejos e impulsos pode soar como um convite ao controle, mas o controle, em si, é uma abstração ilusória diante das forças em constante interação que constituem o mundo. A realidade não é estática nem ordenada segundo nossos desejos de harmonia; ela é um campo de forças em fluxo, onde nada é fixo ou previsível. Nesse contexto, a tentativa de controlar ou equilibrar essas forças não apenas revela uma ilusão de domínio, mas também desrespeita a essência do que é ser: viver a experiência do fluxo sem impor camadas de abstração ou moralidade. O que resta, então, não é a negação dos extremos, mas a aceitação da potência de viver plenamente, permitindo que a experiência revele a trama invisível das forças que nos atravessam. É uma postura que não busca impor limi...

Previsões

Para quem vive no agora, tudo é claro e intuitivo, sem necessidade de predições. O que parece uma profecia para quem está desconectado é apenas o óbvio para quem está presente. Não é prever, é enxergar o que já está acontecendo.

Androginia

Ser andrógino é, essencialmente, devir mulher. Isso não significa o feminino encapsulado pelo sistema dualista — aquele definido em oposição ao masculino e limitado por construções culturais. O devir mulher vai além dessas categorias, representando o princípio criador e transformador que gesta todas as possibilidades. A androginia, quando vista sob essa perspectiva, não é neutra nem equilibrada, mas profundamente feminina. Não o feminino como representação cultural, mas como a força primordial que transcende dualidades e dá origem ao fluxo contínuo da criação.

Crowley e a filosofia da diferença.

 Estou viajando ou Crowley descreve repetição e diferença de Deleuze e Guatarri aqui? 'Todos os elementos devem ter sido, em algum momento, separados – esse seria o caso do grande calor. Agora, quando os átomos chegam ao sol, temos esse imenso calor extremo, e todos os elementos voltam a ser eles mesmos. Imagine que cada átomo de cada elemento possua a memória de todas as suas aventuras em combinação. A propósito, esse átomo (fortalecido com essa memória) não seria o mesmo átomo; no entanto, ele é, porque não ganhou nada de nenhum lugar, exceto essa memória. Portanto, com o passar do tempo e em virtude da memória, uma coisa poderia se tornar algo mais do que ela mesma; assim, um desenvolvimento real é possível. Pode-se então ver uma razão para que qualquer elemento decida passar por essa série de encarnações, porque assim, e somente assim, ele pode passar; e ele sofre o lapso de memória que tem durante essas encarnações, porque sabe que sairá inalterado." Ao longo da história,...

Sou terra de arar

Sou terra de arar Todas as legiões de demônios já estão a me habitar, Pois, quando da natureza parturiente emergi, As legiões fizeram do meu momento um devir. Sou sua filha, mãe e irmã, O divino segredo das formas daqui.

Realidade e misticismo

 A realidade, em sua essência, é uma constante transição entre o "ser" e o "não ser", um princípio de incerteza que permeia a própria estrutura do tempo. Cada átomo "pisca" entre estar e não estar, enquanto blocos de tempo constroem uma linearidade ilusória, que, a cada momento, se dissolve no atemporal. Nesse estado, a consciência, ao experimentar complexidade, pode tocar o vazio potencial do "não ser", um eterno paradoxo que se revela na interseção do ser e do nada. O misticismo, então, surge como um caminho para explorar esse eterno movimento entre existência e inexistência, onde a experiência consciente é simultaneamente uma construção e uma dissolução, refletindo a indeterminação fundamental da realidade.

Solipsos!

Magníficas me parecem as mentes da pura filosofia, que entregam, nas eras das homens, suas mais cristalinas elucubrações. Sem pedir devoção, sem se julgarem potestades do saber, adentram, a facão, a mata das camadas da percepção, para, do coração silencioso de um instante, capturar os mais vibrantes sóis de forças brutas. Solipsos, presenteiam esta humanidade forjada com o adorno da imortalidade do vazio. Salve Nietzsche, salve Nagarjuna, salve até Crowley, salve Spinoza, salve Austin Osman Spare, Kenneth Grant e a Velha Serpente! Salve Deleuze, Simondon e, claro, salve o Dom Juan! Salve, Salve Eduardo Viveiros de Castro! Salve! Salve!

O rito

Em um lugar ermo, na floresta coberta por folhas outonais, momento propício para os rituais, onde elas exalam o úmido e fétido odor das suas viscosidades em decomposição, caía a luz da lua sobre um círculo disposto sobre a vida putrefata. À frente desse círculo, sob o mesmo chão, havia dois castiçais de prata com duas velas acesas em cada um. E ao lado esquerdo, uma ampulheta que demonstrava que acabara de ser virada. Logo à frente, um ser tenebroso, com uma túnica preta e encapuzado. Só se podia discernir seu olhar naquele breu, um olhar vazio, porém penetrante. Ele disse as palavras: "Voco umbras sine nomine, et energiam quae essentiam devorat; veni ad me, ut velum inter mundos scindatur et ego in vacuum aeternum satiem." Assim que pronunciou essas palavras, das sombras surgiram várias figuras vestidas da mesma maneira que o ser sombrio. O ritual havia começado. Os seres das sombras estavam com fome, e clamavam sacrifícios para seu deleite. Enquanto as sombras bramiam na es...

Ser em si

Se ando em vales sombrios, foi escolha que assumi. Das forças que me invadem, faço gana de existir. De ilusões faço um abrigo, que despindo vou partir. Nua, diante do vazio, emergir é meu persistir. Não choro pelas derrotas, bebo lágrimas — meu elixir. No extremo não me retraio, xafurdo, adubo o porvir. Mesmo o sangue sujo aceita, há de tudo me nutrir. Pois de todas as verdades, sei apenas: sou em si.

Vazio

Depois de tanta filosofia, eu me sinto um tanto vazia. Não é um vazio deprimido ou triste com a existência, mas um vazio em si. Tantas magias, linguagens, religiões, filosofias e toda a história chegaram a um ponto em que entendo tudo como relação. Mas tudo o que antes me animava, dava sentido para agir, perdeu seu significado. Parece até um tanto confuso, e me pego fugindo de pensar, pois não encontro mais buracos para cavar. Tudo é representativo — não há verdades, nem erros, nem missão, nem nada. É um vazio como gritar numa caverna e ouvir apenas o eco da sua própria voz. Um vazio que nunca mais pode ser preenchido. Vazio...

A Dança das Forças

 De um modo excepcional, suas forças se entrelaçam às minhas, tecendo no fluxo do tempo um algo novo, um algo nosso. Começamos na memória, no eco do que já foi, mas é no toque, na troca, que a diferença nasce na repetição. Um sussurro de criação, onde o conhecido se dobra e o inédito desabrocha. Transformação, movimento, forças que não se anulam, mas dançam, giram, revelando o inesperado no abraço do familiar.

A Política da Potencialidade

O poder, em sua essência, não é domínio, não é a supressão de outras forças. Ele é o movimento da vida, a capacidade de gerar, transformar, criar novos mundos a partir do campo das relações. Simondon nos lembra: tudo é política. Não no sentido de disputa e opressão, mas como um tecido vivo, onde cada fio é uma força, e cada força, uma possibilidade. Aqui, o poder não subjuga; ele se expande, individua, faz emergir configurações que sustentam o equilíbrio dinâmico do existir. Política não é a destruição do outro, mas a mediação, o entrelaçar de forças, a abertura ao novo, a ampliação do possível. Cada ato, cada escolha, é parte desse jogo imanente, não de hierarquias rígidas, mas de potências que se encontram, que se afirmam e coexistem, criando um mundo onde viver é sempre criar.

Ninzimeki

Eu sou Ninzimeki, sacerdotisa de Inana, não porque me coloco acima, mas porque escuto as vozes do tempo e caminho entre o que foi e o que é. Reverencio Inana, não como algo externo, mas como força viva, imanente, presente em mim, em nós. Não me endeuso, me reconheço. Sou parte da teia que pulsa, sou o que atrai, o que une, o que transforma. Meu poder não é domínio, é gravidade. É o peso de estar aqui, de chamar o feminino primordial e trazê-lo ao mundo que tanto o esqueceu. Eu sou Ninzimeki, e na minha voz ressoam muitas. No meu corpo, o templo. Na minha alma, o eterno.

A Iusão do Controle: Goetia e a Subversão que Não Rompe

Quando falamos sobre sistemas como a Goetia, não se trata de desvalorizar as experiências que surgem deles, nem de negar as forças que se manifestam — forças que agem de forma independente dos sistemas humanos. Essas forças estão além dos paradigmas que construímos, mas é importante lembrar que as práticas mágicas são, antes de tudo, humanas. Como tal, elas inevitavelmente refletem e propagam os paradigmas nos quais foram criadas. Sistemas como a Goetia, ao mesmo tempo em que prometem subversão, muitas vezes acabam ecoando estruturas patriarcais, perpetuando a lógica de controle e hierarquia. Trabalhar com a Goetia é, essencialmente, fazer um cristianismo às avessas. A estrutura permanece a mesma: invocações, pactos, obediência e controle, mas invertida para parecer antagônica. No entanto, a inversão não rompe o paradigma, apenas o reforça de maneira oposta. Isso levanta a questão fundamental: "Você é servo do que te serve?" Ao buscar canalizar e dominar essas forças, ainda ...

O Corpo como Território e o Testemunho do Feminino

  Pensar o corpo como território é essencial para compreender a opressão estrutural do feminino e sua relação com a criação de corpos. Dominar o feminino é criar corpos dominados, corpos que são forçados a caber dentro de modelos impostos pelo capital, pela sociedade e pelas expectativas culturais. O corpo da mulher, enquanto espaço primordial de gestação e transformação, é sistematicamente cooptado, tornando-se o centro de uma disputa que vai além da biologia: é política, simbólica e existencial. Testemunho disso é a minha própria vivência. Antes de ser mãe, eu tinha uma identidade. Sentia-me como um indivíduo com autonomia para ir e vir, ainda que dentro das limitações do contexto brasileiro. Mas, ao me tornar mãe, minha individualidade foi cerceada — pelo meio social, pelas pressões culturais e pelas expectativas internalizadas. Meu corpo, cooptado para o papel de ser mãe, passou a existir apenas como função. Minha liberdade foi trocada pela necessidade de suprir, pela luta cons...

Meditação como Filosofia: O Logos como Ponte para o Feminino Primordial

 A meditação, em sua essência, é um processo filosófico. Não se trata apenas de sentar e esvaziar a mente, mas sim de analisar profundamente um pensamento ou ideia, esmiuçando-o até chegar a um entendimento mais claro e articulado. É uma prática de raciocínio que nos leva a explorar conceitos, confrontá-los, e integrá-los em um sistema de compreensão cada vez mais amplo. Esse processo estruturado de meditação é o que permite à mente alcançar um estado mais profundo de compreensão e, em alguns casos, um estado de gnose. O logos, enquanto ferramenta do pensamento, é indispensável nesse percurso. Mesmo filosofias que buscam o não-ser , como o budismo inicial, partiram de uma base de raciocínio estruturada. Chegar ao conceito de vazio ou à ideia de ausência não é possível sem um esforço rigoroso de análise. Assim, o logos, longe de ser um obstáculo, é um meio poderoso para alcançar estados que transcendem o próprio pensamento discursivo, como o caos primordial ou a imanência latente. ...

Engendrar o Feminino: Uma Criação para o Agora

A busca pelo feminino hoje não é um retorno a um passado matrilinear, nem a tentativa de reviver uma essência primitiva. Essa visão seria estática e limitada, ignorando a fluidez da criação que caracteriza a existência. A questão contemporânea não é recuperar, mas criar o feminino — engendrá-lo como um devir, algo em constante movimento e transformação. Sob a perspectiva deleuziana, o feminino não é uma identidade fixa ou um conceito essencial, mas um campo de forças que desafia o logos da diferenciação binária. Ele emerge como uma potência criativa que resiste à territorialização da cultura patriarcal e busca formas de expressão radicalmente novas. O Feminino Como Potência Criadora Criar o novo feminino significa reconhecer que ele já não está dado, mas está por vir. Ele não se limita a uma repetição do passado, mas se apresenta como um processo de invenção contínua, um fluxo que se molda de acordo com os desafios do agora. Esse feminino não é uma categoria fechada, mas uma multiplici...

O Princípio Feminino: Totalidade, Aceitação e o Fluxo Universal

Na restauração da estrutura da Árvore da Vida, a dinâmica entre Keter, Chokmah e Binah revela o equilíbrio entre totalidade e diferenciação, imanência e manifestação. No topo dessa estrutura, Keter representa o vazio primordial, o absoluto zero — um estado que é impossível de ser "um". Ele é o campo de todas as potencialidades antes de qualquer expressão ou forma. De Keter emerge Chokmah, o princípio feminino, a imanência latente. Chokmah não reconhece polaridades porque ainda não há separação. É o espaço totalizante, onde todas as possibilidades coexistem em harmonia, antes de serem moldadas pela diferenciação. É a aceitação absoluta de todos os fluxos, um estado interconectado que precede a dualidade. Somente com Binah, o princípio masculino, surge a polaridade e a diferenciação. Binah opera como o princípio organizador, que transforma o potencial ilimitado de Chokmah em formas específicas, introduzindo categorias e limites. Ele fragmenta o Todo em partes menores, estrutura...

A Sacerdotisa: Guardiã do Primordial e Transcendência de Da'at

Na reorganização proposta, a sacerdotisa deixa de ser apenas a guardiã de Da'at, tradicionalmente vista como o portal entre o superior e o inferior na Árvore da Vida, e assume uma posição acima dessa esfera. Ela se conecta diretamente a Chokmah e Nuit, representando a sabedoria primordial e a força criativa universal que transcendem a síntese dual entre Binah e Chokmah. Com isso, Da'at passa a ser o reflexo ou sombra do conhecimento primordial que a sacerdotisa encarna, um espaço onde o iniciado experimenta a fragmentação do ego e toca apenas uma parte da sabedoria universal. A sacerdotisa, por sua vez, simboliza a unidade que antecede e transcende a polaridade, estando ligada ao fluxo infinito de Nuit e Sofia, como arquétipo do feminino cósmico em sua totalidade. Essa visão redefine a sacerdotisa como um princípio ativo primordial, realinhando-a com as forças superiores e transcendendo o papel de mediadora tradicional.

Além das Categorias Patriarcais

Onde a água do fogo, o fogo da água, e todas as forças que julgamos conhecer se dissolvem em um tecido convexo e reflexo. Nossas categorias — fogo, terra, ar e água — são símbolos úteis, mas ainda sombras do que é real. Criadas para o conforto de nossas mentes, elas traem a verdadeira natureza das forças: um caos sublime, uma mistura incontrolável. A tentativa de categorizar é patriarcal, antinatural. O mundo não conhece bordas, e, ao tentar impô-las, perdemos sua grandiosidade. Nosso orgulho, nossa história, nossos feitos — tudo isso são suposições de mentes limitadas por suas próprias percepções. O agora, tão celebrado, não é ápice, mas apenas um momento em um fluxo infinito. Acreditar que entendemos o mundo é, talvez, nossa maior ilusão. O mundo é maior do que nossas categorias, maior do que nossa razão. Ele é, em sua totalidade, inominável.