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O rito

Em um lugar ermo, na floresta coberta por folhas outonais, momento propício para os rituais, onde elas exalam o úmido e fétido odor das suas viscosidades em decomposição, caía a luz da lua sobre um círculo disposto sobre a vida putrefata. À frente desse círculo, sob o mesmo chão, havia dois castiçais de prata com duas velas acesas em cada um. E ao lado esquerdo, uma ampulheta que demonstrava que acabara de ser virada.

Logo à frente, um ser tenebroso, com uma túnica preta e encapuzado. Só se podia discernir seu olhar naquele breu, um olhar vazio, porém penetrante. Ele disse as palavras:

"Voco umbras sine nomine, et energiam quae essentiam devorat; veni ad me, ut velum inter mundos scindatur et ego in vacuum aeternum satiem."

Assim que pronunciou essas palavras, das sombras surgiram várias figuras vestidas da mesma maneira que o ser sombrio. O ritual havia começado. Os seres das sombras estavam com fome, e clamavam sacrifícios para seu deleite. Enquanto as sombras bramiam na escuridão, evocando demônios para canalizar seus intentos macabros, em uma casa simples na periferia da cidade, uma angústia repentina tomou conta de Isabele.

Pela porta dos fundos, entrou uma corrente de ar gelada que a fez enrijecer os nervos. Andando de um cômodo a outro, procurava pelas janelas para fechá-las. Ao fechar a porta, entreviu no fundo do quintal o chacoalhar das sombras das árvores, como silhuetas em frenesi. Sentia-se observada.

Ao entrar no quarto, viu seu altar, com imagens esculpidas pela sua própria mão. Tentando acalmar-se, acendeu uma vela branca — que sempre tinha à disposição por causa das constantes quedas de energia no bairro. Ao se sentar diante do altar, com o velho tarô de Marselha em mãos, Isabele puxou três cartas sem pensar em nada, apenas deixando que suas mãos seguissem o instinto. Colocou-as viradas para baixo sobre o tecido gasto que cobria a superfície, sentindo o peso invisível que parecia recair sobre o ambiente. Um tremor percorreu sua espinha enquanto ela virava a primeira carta.

A Lua.
A imagem onírica de duas torres, um lobo e um cão uivando sob um céu fantasmagórico, fez seu coração acelerar. Ela sabia o que significava: mistérios e ilusões, mas também a necessidade de navegar pelo escuro. Uma sensação de déjà vu a invadiu — aquele era o reflexo de algo que já estava com ela há muito tempo, algo que vinha se aproximando como um sussurro distante.

A segunda carta revelou-se O Diabo.
O ar no quarto parecia ficar mais pesado. O semblante ameaçador da figura na carta, com sua força visceral e promessas de tentação, fez Isabele hesitar. Ela sentia que não era apenas um símbolo: aquela carta vibrava com uma presença real. Era como se o próprio peso das sombras que a cercavam tivesse se materializado. Mas havia algo mais. Algo em sua mente sussurrava que o poder que o Diabo oferecia podia ser subvertido, se ela fosse capaz de encará-lo sem medo.

Por fim, virou a última carta: A Imperatriz.
A chama da vela oscilou, lançando reflexos dançantes sobre a imagem da mulher coroada, rodeada por grãos e abundância. Um calor tomou conta de Isabele, um contraste nítido com o frio que a incomodava até então. Era uma promessa, uma revelação. Apesar das forças sombrias que se moviam ao seu redor, ela via ali o potencial de não apenas resistir, mas de crescer. A Imperatriz não era apenas um arquétipo de poder feminino, mas um lembrete de que aquilo que parecia frágil podia se tornar soberano.

Ela pousou o tarô no altar, tentando controlar sua respiração acelerada. As cartas estavam falando com ela, mais do que nunca. Sentia-se ligada a algo além de sua compreensão, algo que a chamava para um destino que ela não tinha escolhido, mas que parecia inevitável.

Continua...

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