Estou viajando ou Crowley descreve repetição e diferença de Deleuze e Guatarri aqui?
'Todos os elementos devem ter sido, em algum momento, separados – esse seria o caso do grande calor. Agora, quando os átomos chegam ao sol, temos esse imenso calor extremo, e todos os elementos voltam a ser eles mesmos. Imagine que cada átomo de cada elemento possua a memória de todas as suas aventuras em combinação. A propósito, esse átomo (fortalecido com essa memória) não seria o mesmo átomo; no entanto, ele é, porque não ganhou nada de nenhum lugar, exceto essa memória. Portanto, com o passar do tempo e em virtude da memória, uma coisa poderia se tornar algo mais do que ela mesma; assim, um desenvolvimento real é possível. Pode-se então ver uma razão para que qualquer elemento decida passar por essa série de encarnações, porque assim, e somente assim, ele pode passar; e ele sofre o lapso de memória que tem durante essas encarnações, porque sabe que sairá inalterado."
Ao longo da história, diversas tradições místicas e filosóficas têm tentado compreender a origem e a natureza do real. Do paradoxo de "0 = 2" de Aleister Crowley às concepções orientais do vazio (shunyata) e do Tao, e até às ideias de repetição e diferença em Gilles Deleuze e Félix Guattari, existe uma convergência: a afirmação de que a unidade e a multiplicidade não são opostos, mas manifestações de um mesmo movimento.
Crowley, em seu enigmático "0 = 2", sugere que o zero não é um nada absoluto, mas um campo de possibilidades infinitas, do qual emerge o múltiplo. Esse múltiplo não é uma negação do zero, mas sua expressão ativa. O zero, então, nunca é igual a um (1, o ponto fixo), pois o um implica limitação, fechamento, o fim do movimento. Em vez disso, o zero se manifesta como dois (2), ou seja, como a mínima diferença que gera todas as outras, como o início do fluxo e da interação.
Essa ideia se conecta com o conceito do losango. O losango representa a interação entre forças que, ao se perceberem, se tornam conscientes. No vértice inferior, está o Uno, o campo de todas as potências e possibilidades. Ao emergir do Uno, surgem duas forças ou polaridades que se projetam nos lados do losango. Essas forças, ao se reconhecerem, criam um terceiro ponto no vértice superior, que é a consciência — o resultado da interação dinâmica entre as forças. O losango, então, é a estrutura simbólica desse movimento: o Uno gera o múltiplo, e o múltiplo retorna ao Uno como uma expressão consciente.
Dentro desse movimento, surge o conceito de meta-imanência. A meta-imanência é a percepção de que o transcendental não está fora do mundo, mas é um reflexo interno do próprio imanente. Não é algo que se opõe ou está além da imanência, mas uma intensificação dela. Se a imanência é o campo em que todas as forças interagem e se manifestam, a meta-imanência é a consciência dessa dinâmica enquanto ela ocorre. É a imanência observando a si mesma, percebendo que o que chamamos de transcendência é, na verdade, o reflexo da própria imanência em seus limites.
O que chamamos de transcendência é, muitas vezes, apenas a nossa incapacidade de perceber outras forças que estão além dos limites do nosso organismo. Nosso aparato sensorial e cognitivo é naturalmente limitado: ele foi moldado para interagir com um conjunto específico de estímulos no mundo. Forças que estão fora desse espectro — energias, vibrações ou interações mais sutis — permanecem invisíveis. Contudo, conforme evoluímos tecnologicamente, descobrimos novas camadas de realidade que antes eram completamente inacessíveis. A eletricidade, os campos magnéticos, os raios-x, e até as partículas subatômicas são exemplos de forças que sempre estiveram presentes no universo, mas que só conseguimos perceber e estudar por meio da expansão de nossas ferramentas e conhecimentos.
Essa descoberta de novas camadas é potencialmente infinita. Cada camada acessada revela outra ainda mais profunda, sugerindo que o universo é um tecido interminável de forças e interações. A transcendência, portanto, não é algo externo ou separado, mas um reflexo daquilo que ainda não conseguimos perceber dentro do próprio movimento imanente.
No pensamento de Deleuze e Guattari, isso é descrito pela repetição e diferença: a cada repetição, há uma diferença, e é nessa diferença que reside a criação. De modo semelhante, Crowley, ao descrever os átomos que “carregam a memória de suas aventuras em combinação”, fala da diferença que emerge dentro da repetição. Cada átomo, embora inalterado em sua essência, carrega em si as marcas do múltiplo, das combinações que o moldaram. A meta-imanência, aqui, seria a capacidade de perceber essa memória não como algo exterior ao processo, mas como parte inseparável do movimento imanente.
As filosofias orientalistas também refletem esse movimento. No budismo, o conceito de shunyata (vazio) descreve o espaço onde todas as formas surgem e desaparecem. O vazio não é ausência, mas plenitude potencial. No taoísmo, o Tao é o fluxo infinito que nunca se cristaliza em uma identidade fixa, mas que se manifesta em todas as coisas. Aqui, novamente, o 0 não é diferente do múltiplo; é nele que o múltiplo se origina e encontra sua continuidade.
O "0 = 2" é, então, uma expressão mística da mesma lógica imanente presente no losango e nas filosofias de repetição e diferença. O transcendental, se existir, não está fora do imanente: é o próprio campo onde o imanente se reflete, se dobra e se recria. Essa meta-imanência revela que o real é um fluxo contínuo onde o Uno e o múltiplo são faces de uma mesma experiência, onde o zero é o espaço vivo de todas as possibilidades.
A meta-imanência não é apenas um conceito abstrato; ela aponta para a capacidade de reconhecer que todas as interações, todas as formas e todas as forças estão conectadas, não por algo externo, mas pelo movimento dinâmico e interno da própria existência. Ela dissolve as fronteiras entre imanência e transcendência, unificando-as como partes de um todo que nunca se fecha, mas que está sempre em devir.
Em última análise, essas ideias convidam a abandonar a separação entre filosofia, misticismo e ciência. Elas levam a pensar a existência não como algo dividido entre categorias fixas, mas como um processo vibrante, onde cada expressão é parte de um todo que nunca se cristaliza, mas que continuamente se recria.
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