Trata-se de negar tudo o que tenta ocupar esse lugar
até que reste apenas o que não cede.
Não é a negação como recusa.
É a negação como operação.
Linguagem não escapa. Se se diz que é limite da linguagem, ainda assim se diz.
Silêncio não escapa. Se se apela ao silêncio, ele comparece.
Indizível não escapa. Se se invoca o indizível, ele insiste como limite.
Nada disso suspende.
Nada disso retira o problema.
Tudo isso já está no haver.
Não para uma mente.
Não para um sujeito que percebe.
Para que haja qualquer mundo.
Não há um “para quem” anterior a isso.
Então não é questão de dizer melhor.
É questão de não poder evitar.
Há.
Não como coisa. Não como ente. Não como conceito que se sustenta por si.
Mas como impossibilidade de não haver.
Tentar negar isso não falha.
Não chega a se sustentar como tentativa.
Porque a negação já opera no haver.
E essa impossibilidade não é inerte.
Ela não permanece muda sem consequência.
Não se sustenta um haver absolutamente mudo.
Porque, se fosse absolutamente mudo, não haveria sequer como sustentar que há.
O próprio "há" impede isso.
Então, se há haver, há comparecimento. Mesmo mínimo.
Se há comparecimento, já há incidência.
Se há incidência, há afecção.
Não como interioridade. Não como sujeito.
Mas como traço mínimo de que o haver não é pura indiferença.
A isso se chama consciência.
Pode-se chamar de outro modo.
O nome não importa.
O que não se pode fazer é retirar a função sem colapsar o que ela sustenta.
Quem rejeita o nome precisa manter a estrutura.
E, mantendo a estrutura, descreve o mesmo sob outro nome.
Retirar isso é fazer o haver colapsar em um nada que não se sustenta,
ou em uma mudez que não comparece.
Dado isso, não há como permanecer no informe absoluto.
Se há afecção, há campo.
Se há campo, há variação.
Variação sem forma. Sem identidade. Sem coisa.
Esse campo não é escolhido.
É o que resta quando não se pode cair no nada
nem saltar diretamente ao mundo.
Pode-se tentar eliminar esse regime intermediário.
O resultado é invariável:
ou o mundo aparece sem passagem
ou a passagem reaparece com outro nome.
A isso se chama Vórtex.
Não como imagem.
Mas como o único regime que não colapsa entre o haver e o que aparece.
Mas ainda não há mundo.
O campo não decide. O campo não recorta. O campo não fixa.
E, no entanto, há fenômeno.
Isso não precisa ser provado.
Já está dado.
Algo aparece. Algo se torna isto.
Então houve atualização.
Essa atualização não vem de fora. Não há fora.
Não vem do campo. O campo não decide.
Não pode ser eliminada. O fenômeno permanece.
Logo, há operação.
Quem tenta nomear outra coisa no lugar dessa operação
descobre que está nomeando a mesma coisa.
A isso se chama Índice.
Não como explicação.
Mas como nome do fato de que há passagem.
Não é o Índice que justifica o fenômeno.
É o fenômeno que obriga o Índice.
E ainda assim não se fecha.
O que aparece não esgota o haver.
O que se atualiza não consome o campo.
A impossibilidade de referência permanece.
Porque se o haver é irreferível em sua base,
nenhuma atualização o esgota.
Isso não é adicionado.
É implicação direta do que já não podia ser negado.
Então há resto.
Não como coisa escondida. Não como fundo.
Mas como aquilo que não se deixa atualizar completamente.
A isso se chama Não-Nascido.
Não surge. Não aparece. Não se apresenta.
Mas impede o fechamento.
Não é outro mundo.
É a impossibilidade de que este seja tudo.
Nada disso é escolha.
Nada disso é hipótese.
É o que resta quando não há mais para onde fugir.
Se há fenômeno, então há.
E disso não se sai.
Apenas se nomeia de outro modo.
Não é questão de nome.
Nem de linguagem. Nem de silêncio.
Negar não suspende.
Negar já acontece.
E acontecendo, há.
Não há fora.
Não há recuo.
Não há como não haver.
O “há” não é coisa.
Não é conceito.
Mas não cede.
E não é mudo.
Porque mudo não comparece.
Se comparece, incide.
Se incide, não é indiferente.
Chamem como quiserem.
Não retirem isso.
Porque sem distinção não há regra.
Sem regra não há inferência.
Sem inferência não há negação.
E toda negação já ocorre.
Se ocorre, há operação.
Se há operação, há passagem.
Se há passagem, algo se torna isto.
O fenômeno permanece.
E não o esgota.
Há resto.
Não como fundo.
Mas como o que não fecha.
Não é hipótese.
Não é escolha.
É o que sobra
quando não há mais
para onde fugir.
há
há não-indiferença
não-indiferença implica diferença
diferença em ato = passagem
passagem não pode ser pontual (senão não há “isto”)
não sendo pontual, há persistência mínima
persistência = relação entre ocorrências
relação = coerência mínima
coerência mínima = consistência local
Fim.
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