Em muitas correntes filosóficas, o conceito de devir é central para entender como a vida, o ser, a matéria e o espírito estão em constante movimento. O devir é o processo de transformação, mudança contínua, que nunca se concretiza em um estado final ou estático. Mas e se, ao pensarmos sobre o devir, pudermos também questionar o que está se transformando, como ele se origina e, principalmente, de onde vem essa força transformadora?
Quando exploramos o devir-mulher, como o entendo aqui, não se trata apenas de uma mudança fluida, aberta e indefinida, como nos propõem Deleuze e Guattari. O que está em jogo não é apenas um movimento sem forma ou uma transição indefinida, mas uma essência primordial, que se conecta diretamente com a própria base da vida humana e natural. O devir-mulher não é apenas um potencial de transformação, mas a própria força vital, a energia que mantém os seres e suas relações em continuidade. A mulher, nesse devir, é a representação dessa força unificadora, um elo essencial entre os seres humanos e o cosmos.
O Ser e o Fluxo: A Mulher Como Elo Essencial
Aqui, a mulher não é apenas um ser humano ou uma identidade socialmente construída. A mulher, em seu devir, é vista como uma força natural que não depende de uma estrutura ou convenção social para exercer seu papel de conexão. Antes de qualquer definição cultural ou social sobre o que é ser mulher, a mulher é um elo primordial, que mantém a continuidade dos fluxos da vida.
Vamos pensar sobre isso. Ao longo da história, especialmente em culturas matriarcais, a mulher foi vista como aquela que gera e nutre, tanto fisicamente quanto simbolicamente. Esse poder de gerar não se limita apenas à procriação. A mulher, nesse contexto, era e ainda é o ser que está mais intimamente ligada à terra, à vida e aos ciclos naturais. Ela é a cola que une, a base que liga os filhos às mães, as gerações às suas raízes. Mesmo em sociedades mais modernas, embora as estruturas tenham mudado, essa conexão essencial entre a mulher e os fluxos naturais da vida não desapareceu. A mulher continua sendo o elo entre os filhos e o mundo, entre os seres e suas origens.
Esse entendimento nos faz questionar: qual é a origem dessa conexão? Como chegamos à ideia de que a mulher, que é essa força unificadora e ligada aos fluxos do mundo, se transformou, em algum momento, em algo mais objetificado, com seu valor reduzido a uma construção social, a um "papel" ou a um "lugar" na sociedade? O que aconteceu para que, ao longo do tempo, essa essência fosse substituída por uma estrutura patriarcal que coloca o homem como o principal elo da sociedade?
A Transformação do Elo: Patriarcado e a Substituição do Fluxo
No momento em que a sociedade se estruturou de maneira mais rígida e hierárquica, a mulher foi gradualmente deslocada do seu papel primordial como "elo" essencial. O conceito de "pátria" – derivado de patriarcado – sugere um movimento de centralização do poder na figura do homem, que passa a ser visto como a fonte de união, de criação e de continuidade. Esse processo, por sua vez, desloca a mulher de seu papel central e a transforma em um "objeto" ou uma "moeda de troca". Ela deixa de ser vista como a força natural que mantém os fluxos da vida em equilíbrio e passa a ser entendida apenas como um meio para um fim: a procriação, a produção de descendência, o futuro.
Isso nos leva a uma questão crucial: quando a mulher foi transformada de um "elo" vital para um "objeto" de valor social e econômico? Em vez de ser a força que conecta e sustenta, ela passou a ser vista como algo que simplesmente "dá origem", sem que sua essência de continuidade fosse reconhecida. A mulher, com sua capacidade de gerar e de nutrir, foi objetificada. A estrutura patriarcal redefiniu o "valor" da mulher, colocando-a em um lugar secundário, dependendo de uma convenção social que valorizava o homem como o centro, o construtor da união, o mantenedor da ordem.
O Devir-Mulher Como Essência Natural: A Luta pela Reconexão
Ao repensar o devir-mulher não apenas como um fluxo indefinido, mas como uma força essencial, podemos questionar a artificialidade dessa estrutura patriarcal. A verdadeira essência da mulher, em seu devir, é o elo que une, a força que mantém as relações e a continuidade da vida. O devir-mulher que propomos aqui não é uma transformação que busca criar algo novo, mas é um reconhecimento de uma energia que sempre existiu e que, por muitos séculos, foi subvalorizada ou esquecida. O fluxo que sempre esteve presente foi distorcido, transformando a mulher de um ser essencial em um objeto de convenção.
Portanto, quando falamos sobre o devir-mulher, é fundamental compreender que ele não é apenas um conceito abstrato, mas uma força vital que já está no cerne da vida humana. Ele é a transformação constante da mulher, não em sua identidade social, mas em seu papel essencial como o elo que mantém a vida conectada aos seus fluxos naturais. O devir-mulher é a reconexão com essa força primordial, uma força que pode ser esquecida, mas que nunca desapareceu.
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