Pegando o gancho do último texto O Tempo e a Transcendência, surgiram algumas questões: a consciência é algo anterior à existência ou se dá no devir?
Tradições espirituais falam de uma única consciência que se fragmenta para experienciar a realidade, o que implicaria que a consciência já estaria dada antes de qualquer manifestação. Outras tradições, veladamente ou explicitamente, falam que a consciência precisa ser alcançada, como se fosse um ponto de chegada.
Se conectarmos com o texto anterior, podemos supor a alma como um programa de nível de interface máquina/mente, portanto, coletiva. Esse programa seria aproximado entre todos os seres de uma mesma espécie, mas, de alguma forma, também se relacionaria com seres de outras espécies, já que, seguindo uma linha de emaranhamento, todos os seres partem de um princípio em comum e se afetam no devir. O que há de comum entre eles seria a anima mundi, o programa essencial de sua linhagem, que se bifurca indefinidamente.
A consciência seria, portanto, o resultado de relacionamentos complexos e não estaria presente na imanência sem a complexidade proporcionada pelo devir. Ela não seria um ponto de partida, pois, onde há o nada da imanência latente, não há relação para diferir uma coisa da outra. No nada, não há distinção, não há o que medir. Ser consciente é distinguir entre nuances e, a partir disso, gerir o que torna um ser mais potente. A consciência está diretamente ligada ao devir, que é uma medida de tempo — a medida de um estado para outro numa linha progressiva para nós. Talvez essa medida se manifeste de diferentes formas para consciências de outras naturezas, mas sempre de alguma forma o devir implica numa dimensão de medição entre estados diferenciados.
Assim, penso que a consciência se faz a partir do devir, podendo se tornar mais complexa ou não. Ela não estaria no ente da imanência, mas a partir dele. Isso é fácil de imaginar, já que nós mesmos só podemos ir até onde há dualidade para percepção no nosso "programa de fábrica". Além disso, é necessária uma complexificação especulativa para criar o espírito.
Mesmo assim, ainda há um ponto de partida: o vazio, o nada. Mas o conceito de "ponto de partida" só faz sentido para nós, seres limitados pelo tempo biológico. O vazio pode ser entendido como a ausência de diferenciação, onde não há tempo, não há relação, e, portanto, não há distinções que possamos perceber. No vazio absoluto, o conceito de "ponto de partida" perde o sentido. Ali não existe espaço, tempo ou consciência — apenas uma potência pura, sem forma, sem medida, sem percepção.
A consciência, então, só pode emergir quando há diferenciação. Ela é inseparável da medida, ou seja, do ato de distinguir entre estados ou condições, o que implica tempo e transformação. Fora do devir, no vazio absoluto, não há consciência, pois não existe relação ou contraste para permitir a percepção de qualquer coisa. É no processo contínuo de transformação e diferenciação que a consciência se manifesta, nunca como algo fixo ou anterior à realidade, mas como algo que surge e se complexifica com o desenrolar do devir.
Essa complexificação especulativa é o que gera o espírito. Ao longo desse processo de evolução e transformação, a consciência se torna cada vez mais refinada e complexa, eventualmente dando origem ao que podemos chamar de espírito. O espírito, então, não seria algo pré-existente, mas o resultado de uma jornada de complexificação contínua — uma criação emergente, forjada a partir das interações, transformações e relações que ocorrem no devir.
O espírito é um tipo de consciência mais complexa, enquanto a alma está imersa nos processos biológicos e culturais. O que percebemos como sobrenatural se revela, na verdade, como reflexos de nossos relacionamentos com a anima mundi. É importante notar que não há limites rígidos entre as consciências; existe um degradê contínuo onde elas se afetam mutuamente. Portanto, os termos "espírito" e "alma" pode não capturar a essência que busco, pois não possuem o mesmo significado para mim que têm na concepção usual.
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