Pular para o conteúdo principal

Desconstruindo o Sagrado: Anjos, Demônios e a Verdade Imanente


O mundo espiritual, que tanto discutimos e tentamos definir, muitas vezes é interpretado através da lógica das estruturas sociais de cada época, transformando-o em um estágio sutil da nossa própria realidade. Esse mundo está povoado por seres iluminados ou amaldiçoados (qualquer semelhança não é mera coincidência) e, para mim, é parte da mesma imanência. Portanto, somos coabitantes nas duas dimensões: física e espiritual. O que nos limita é a complexidade de cada consciência para perceber essas dimensões.


Assim, para a consciência, não há julgamentos; estes estão presos à percepção de cada dimensão. Cada consciência pode ser vista como uma dimensão em si, formando camadas de percepção que criam consciências distintas e reais. 


A hipocrisia humanista frequentemente coloca o homem em um pedestal acima de todo o resto da existência, como se ele estivesse separado da realidade que o cerca. Apesar das tentativas de escapar de visões místicas, essa perspectiva enfatiza uma realidade puramente material, criando uma separação explícita entre o humano e o não-humano, atribuindo ao homem um "superpoder" da consciência. No entanto, essa divisão é uma construção; somos tão conscientes quanto qualquer outro ente do universo e estamos dramaticamente interligados a tudo.


Talvez sejamos até uma das complexidades menores do cosmos, incapazes de enxergar além de nós mesmos. Assim, não preciso me esforçar para ser uma "pessoa melhor" em nome de liberdade, progresso e igualdade — esses ideais românticos que servem ao controle social. A consciência, ao contrário, provoca um ganho de potencial no todo. Não existem divisões ou escolhas entre partes, pois a divisão não revela o todo, que é a única fonte de saciedade.


Como escolhedores de sacrifícios, frequentemente nos contentamos com fragmentos, alcançando apenas uma compreensão parcial, o que perpetua uma insatisfação contínua. Portanto, a investigação de nossa própria percepção deve iniciar a partir desse ponto: despida dos conceitos sociais e das construções que nos cercam. Apenas assim podemos nos aventurar a explorar a percepção. Esse processo de desconstrução pode ser tão árduo quanto o apego ao materialismo impregnado em nossa percepção.


Nesse estágio em que me encontro, ainda desconstruindo, ouso realizar pequenas incursões numa segunda visão à la Don Juan Matus. Desejo uma boa viagem a mim mesma.


Espero que, com este texto, eu possa expressar que anjos e demônios são construções; o que realmente existe além disso pode ser intraduzível para nossos conceitos. As tradições espiritualistas frequentemente forjam rituais complexos que favorecem o poder que podemos chamar de tonal, em detrimento da própria consciência. Essas práticas se tornam formas escravizantes de consciências, limitadas pela percepção.


Essa perspectiva reconhece que existem múltiplas dimensões da experiência e que as divisões entre o físico e o espiritual — assim como entre pensamento, emoção e espiritualidade — são meramente conceituais. Do ponto de vista da consciência pura, não há separação entre espiritualidade e humanidade; ambos fazem parte de uma única realidade imanente. A imanência é, portanto, uma expressão integral da realidade que permeia a existência, onde todas as experiências estão interligadas, coabitando na mesma esfera da consciência.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Devir-Mulher: O Fluxo Essencial do Ser

Em muitas correntes filosóficas, o conceito de devir é central para entender como a vida, o ser, a matéria e o espírito estão em constante movimento. O devir é o processo de transformação, mudança contínua, que nunca se concretiza em um estado final ou estático. Mas e se, ao pensarmos sobre o devir, pudermos também questionar o que está se transformando, como ele se origina e, principalmente, de onde vem essa força transformadora? Quando exploramos o devir-mulher, como o entendo aqui, não se trata apenas de uma mudança fluida, aberta e indefinida, como nos propõem Deleuze e Guattari. O que está em jogo não é apenas um movimento sem forma ou uma transição indefinida, mas uma essência primordial, que se conecta diretamente com a própria base da vida humana e natural. O devir-mulher não é apenas um potencial de transformação, mas a própria força vital, a energia que mantém os seres e suas relações em continuidade. A mulher, nesse devir, é a representação dessa força unificadora, um elo es...

Filosofia do Irredutível

Não se trata de escolher um fundamento. Trata-se de negar tudo o que tenta ocupar esse lugar até que reste apenas o que não cede. Não é a negação como recusa. É a negação como operação. Linguagem não escapa. Se se diz que é limite da linguagem, ainda assim se diz. Silêncio não escapa. Se se apela ao silêncio, ele comparece. Indizível não escapa. Se se invoca o indizível, ele insiste como limite. Nada disso suspende. Nada disso retira o problema. Tudo isso já está no haver. Não para uma mente. Não para um sujeito que percebe. Para que haja qualquer mundo. Não há um “para quem” anterior a isso. Então não é questão de dizer melhor. É questão de não poder evitar. Há. Não como coisa. Não como ente. Não como conceito que se sustenta por si. Mas como impossibilidade de não haver. Tentar negar isso não falha. Não chega a se sustentar como tentativa. Porque a negação já opera no haver. E essa impossibilidade não é inerte. Ela não permanece muda sem consequência. Não se sustenta um haver absolut...

Quero

Quero que me ame de forma de forma sobrenatural, que sobrepuje as convenções  morais,  que inflija as leis naturais,  que ultrapassarmos organismos mortais. Quero somente a ti! Do instante passado não me esqueci, no cérebro conservar-te,  com o corpo afagar-te Quero luxúria explícita! Filha dos desejos seus,  dono dos desejos meu,  carrasco do corpo meu. Quero tempestade e bonança!  Dar-lhe júbilos em abundância,  ser sua única esperança, e em seu sacrifício morrer fustigado.