Escrevo de um lugar onde a possibilidade não é limite — é o velho corpo de deus, varzeando acontecimento antes de qualquer forma. Não como tese, mas como incidência.
Sem isso, o entendimento tende a se fechar em conceitos que operam sobre conceitos, reproduzindo-se como regime. Não é a abstração em si, mas sua autonomização que produz esse circuito — servidão a servidão, quando o operador se toma por totalidade. A diferença que abstraímos não é falsa, mas pode tornar-se autorreferente, sustentando camadas que se alimentam de sua própria consistência. Há nisso um ganho afetivo — não como prova de erro, mas como índice de estabilização. Esse movimento é difícil de perceber desde dentro, não por incapacidade, mas porque é o próprio modo de operação do regime cognitivo. O que escapa a ele não aparece como alternativa, mas frequentemente como excesso, ruído ou aquilo que, para nós, soa como magia fantasmagórica. Não se trata de recusar a cognição, mas de situá-la: há domínios em que ela opera com precisão, e outros em que apenas recobre. A categoria não apaga as fezes, a carne em decomposição, a dor, a angústia — assim como não produz o afeto bruto de um toque que escapa à forma. Esses não são argumentos contra o conceito, mas limites de sua incidência. Se a abstração constrói mundos, o problema não está na construção, mas no esquecimento de que se trata de construção.
Em muitas correntes filosóficas, o conceito de devir é central para entender como a vida, o ser, a matéria e o espírito estão em constante movimento. O devir é o processo de transformação, mudança contínua, que nunca se concretiza em um estado final ou estático. Mas e se, ao pensarmos sobre o devir, pudermos também questionar o que está se transformando, como ele se origina e, principalmente, de onde vem essa força transformadora? Quando exploramos o devir-mulher, como o entendo aqui, não se trata apenas de uma mudança fluida, aberta e indefinida, como nos propõem Deleuze e Guattari. O que está em jogo não é apenas um movimento sem forma ou uma transição indefinida, mas uma essência primordial, que se conecta diretamente com a própria base da vida humana e natural. O devir-mulher não é apenas um potencial de transformação, mas a própria força vital, a energia que mantém os seres e suas relações em continuidade. A mulher, nesse devir, é a representação dessa força unificadora, um elo es...
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