— Porra, caralho, liga logo essa bosta! — Tiziu entrou no carro apressadamente, desesperadamente, treslocadamente. O guia do carro tentava dar a partida, mas o carro só reinava, só reinava. Adrenalina lá em cima. As sirenes se aproximando. O coração pulsando a mil por hora. De repente, o carro pegou. E eles saíram pela cidade doida, envaidecida com seu próprio orgulho. E eles mesmos, orgulhosos de estarem ali, sendo livres, sendo eles, e fazendo o que queriam. A perseguição fazia a carne arder. Eles passavam resbalando nas esquinas e nos transeuntes. E as sirenes atrás, enlouquecidas, sugando o rastro deles. As luzes passavam rápido. E flashes, e flashes, e flashes vinham. E pegavam. E viravam. Eles entravam, eles iam. Buracos e mais buracos. Correndo. Mas não havia começado assim. Não começava com isso.
Aqueles olhos já não pertenciam a essa realidade. Já haviam transcendido, já fazia algum tempo. Eles estavam aqui, vagando... sobre a sombra do mundo. Mas o que eles viam, só eles podiam dizer. Ninguém nunca saberá. Aquele ser que chamavam de Tiziu. Assim todos o chamavam. E o que se sabia é que era louco. Que não rasgava nada. Que não tinha medo e nem pudor. E que para ele só existia uma regra: aquela que ele mesmo criava.
Tiziu, há muito tempo, havia deixado de se importar. Isso não quer dizer que ele não amava. Ele amava até demais. Ele amava... além das pessoas. Ele amava o que acontecia. Ele amava o acontecimento. Desde jovem... não se enquadrava. Não entrava nas caixas. Não pertencia a grupo algum. E... no fim... descobriu que não se importava. Porque, se isso doía, ele simplesmente... ia e acontecia. Tiziu não queria caber. Para ele, não importava o certo ou o errado. Tiziu não queria ganhar dinheiro. Tiziu não queria ter uma boa posição. Não se importava com o que achavam dele. É claro que todo mundo o achava estranho. Um doido, desvarrido. Mas, para Tiziu, só o que importava era que ele só conseguia fluir. Ele só conseguia devir, acontecer. Não tinha que ligar um acontecimento no outro que fizesse muito sentido. Pouco importava. Não tinha um direcionamento. Não era para ser bom ou melhor. Não era para ter mais ou para ter menos. Ou para comparar. O que era ele era dele. Só dele. A experiência que ele tinha, só ele tinha. Nenhum outro ser... no mundo todo, em todas as eras... em todos os éons... poderia ter uma experiência de Tiziu. Tiziu era singular.
Ele chegou no desmanche, conversou com um rapaz que estava ali, e acertaram qual carro precisavam. Estava armado, tinha um 38 no bolso, comprado de um traficante na bocada. Não ligava para drogas, gostava da adrenalina, com ou sem elas. Disse que não rasgava nada. Comprava briga com quem fosse só para ter o direito de acontecer e deixar acontecer. Entrou no carro, e foram rodar na cidade, ele e o motorista. A arte da cabritagem era emocionante, rondar nos bairros ricos e nos pobres também. À procura da vítima perfeita, aquela desejada, que tivesse ali uma maneira mais fácil de ser arrombada. Mas não importava, se achasse a vítima, dava-se um jeito.
O trabalho de Tiziu era espreitar. Nos cantinhos, passando de fininho, sempre observando, analisando. Sua primeira namorada, ele amou. Amou como amante, com uma entrega total. Fazia todas as vontades dela, cantava como um trovador para uma princesa, sendo o mais belo dos cavalheiros. E sua última mulher também. Ele se entregava e amava como ninguém, sem medo da paixão. Ele sentia aquilo até esgotar, até a última gota de tesão. E, por último, ele dava de si até esgotar o devir.
Como Tiziu não se enquadrava e não pertencia a nenhum grupo, e não tinha compromisso com ninguém, não fazia parte dos clubes de bolinhas, nem de nenhum corpo. Ele usava e abusava da sua pura honestidade ao lidar com todos, sem recalques, sem papas na língua. Suas observações eram cruas, do acontecimento. Sem os filtros dos grupos, que tendem sempre a direcionar o sentido. Ele lia as coisas como eram, lia as pessoas como eram no puro acontecimento. Os filtros morais que cada grupo cria para que seus membros se reconheçam não funcionavam para ele.
A essa altura, com os olhos já vagando, Tiziu havia transcendido. Estava na imanência. Não é fácil entrar na imanência. Durante algum tempo, ele lutou. A resistência segura, te prende. Você se enquadra, se desconcerta, se remodela, se distorce. Mas, no fim, Tiziu não se encaixava. E estar na espreita, nas esquinas, observando os acontecimentos, a distração de um motorista, um carro que chamava a atenção. Ou vagando pelas calçadas das pessoas distraídas. Ali ele estava no Tiziu. E Tiziu já sabia que era muito conhecido. A polícia já estava no seu encalço há algum tempo. Ele sabia que também era espreitado. O acontecimento que acontece, ele fazia parte da história. E a história estava vindo lhe cobrar.
O mapa quer te capturar, para te contar do jeito dele, no tempo dele, na moral dele. É isso que a história vem fazer: contar a sua versão e acabar com o que é singular.
Eles encontraram o carro, parado na noite, numa esquina qualquer da cidade da América Latina, onde Tiziu, um rapaz branco de vinte e poucos anos, era apenas Tiziu. Começaram com a cabritagem, arrombando o carro disfarçadamente. Conseguiram entrar, e, como foi tranquilo, saíram calmamente em direção ao desmanche, longe, escondido no meio dos matos na região metropolitana. Barro, pó, tudo misturado. Quantas vezes dias de sol, noites, madrugadas, na alta cabritagem. Mas não era coisa fácil. Dava trabalho. Os caras tinham que voltar, continuar na espreita, idas e vindas. Nisso, uma linha, um baseado, algumas cervejas, olhar as meninas. Sempre com mais um cigarro, mais um cigarro, mais um cigarro. De novo, já estavam na espreita. Mais uma esquina. Tiziu olhava pela janela e viu uma menina com cabelos ondulados, compridos, magrinha, de beleza sutil. Acelerou o coração. Voltou aos dezessete, quando segurava os cabelos daquela moça que vomitava aos seus pés. E ele a amava, a cuidava.
Não se sabe se foi por querer ou por sentir, mas Tiziu voltou para o bairro, para a casa, correndo ensandecidamente das polícias para o lugar onde nasceu. As sirenes zoando atrás dele, a cabeça fervilhando. Mas uma certeza ele tinha:
— Não vou me render, eu não vou me render. — Enlouquecidamente, correndo dentro do bairro, tudo escuro e silencioso. Ele para em frente a um terreno baldio. A polícia para atrás dele. A polícia acerta o colega dele, o motorista. E ele sai correndo para o terreno baldio, gritando: — Não vou me render, eu não vou me render. Venha, venha aqui, cara. Quero ver se vocês me pegam. — E atirou em direção aos policiais, sem rasgar nada, como ele sempre dizia. Disparos de ambos os lados. — Quero ver se me pega, venha me pegar. Venha. — Silêncio. Os bebês saíam, assustados. O silêncio. Os bebês, lá no fundo. Os bebês, lá no fundo. Os bebês, lá no fundo. Tiziu vomitava sangue. Olhava na direção das luzes. Sentiu seu próprio gosto. E, à medida que se esvaía, se preparava para outro... um outro devir.
Um passarinho errático na imanência. Tiziu, para cima para baixo, em todos os lados, e voltando sempre aonde se inicia a linha de fulga.
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