O amor entre duas pessoas pode ser aquele do cotidiano,
aquele que aprende a velar pelos cuidados das necessidades rotineiras,
criando, em conjunto, um espaço de conforto e proteção.
Mas há também o amor que gera, em todos os instantes, algo novo,
uma centelha de paixão pelo contato,
sempre renovada em novas formas.
Essas duas formas nem sempre andam juntas.
O que frequentemente acontece é que abdicamos do segundo em função do primeiro,
pois, para a manutenção e sobrevivência na sociedade, ele é mais funcional.
Porém, apesar de funcional, esse amor rotineiro nega uma parte vital da existência,
aquela em que a relação é um ato criativo,
e não apenas o cumprimento de necessidades.
A criatividade, então, é trancafiada no porão da alma,
e vivemos como zumbis.
Acredito que erramos já no início de um relacionamento,
quando vemos o outro como um "cotoco de amarrar bode",
e nós, como os bodes.
Não que esse tipo de relação não seja importante—para nossa manutenção como espécie, como animais, ela é essencial.
Mas o além, onde enxergamos modos de criação conjunta,
sem propósito funcional, apenas experimental,
é o que nos torna singularidades.
Nesse sentido de amor que é relacional, e não apenas o puro devir, temos uma decisão que se faz presente a cada instante sobre como amar nos relacionamentos, para que esse segundo devir seja sempre potente para nós.
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