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Da incidência à Consciência Irredutível

 

Da incidência à Consciência Irredutível

Poder-se-ia objetar que esta demonstração estabelece apenas uma condição necessária para afirmar que há ocorrência, sem alcançar uma verdade ontológica independente do próprio ato de afirmar. Segundo essa objeção, a impossibilidade de negar coerentemente a ocorrência provaria apenas algo sobre o discurso: para falar, negar ou duvidar, precisamos pressupor que algo ocorre. Isso não demonstraria que o real, considerado independentemente de qualquer afirmação, possua essa mesma estrutura.

Essa objeção, porém, pressupõe uma separação que aqui não pode ser mantida. Ela trata a afirmação como se fosse apenas uma representação do ocorrer, situada diante de um real exterior e independente dela. Mas afirmar, negar, duvidar ou suspender o juízo não são atos exteriores à ocorrência. São ocorrências efetivas.

A demonstração, portanto, não parte de uma condição do discurso para inferir uma realidade escondida atrás dele. Ela parte do fato de que o próprio discurso ocorre. A negação não é uma imagem da ocorrência, mas uma ocorrência determinada. A dúvida não contempla o Há de fora; ela acontece no Há. O silêncio deliberado, a suspensão e a tentativa de recusar qualquer afirmação também comparecem como acontecimentos.

O Há não designa uma substância oculta por trás das ocorrências, nem uma coisa em si à qual o pensamento tentaria chegar. Designa o caráter irredutível do próprio ocorrer. Por isso, não existe aqui uma passagem ilegítima entre uma pressuposição da linguagem e uma conclusão sobre um real exterior à linguagem. O ato pelo qual se tenta negar a ocorrência já exibe, em sua própria efetividade, aquilo que pretende eliminar.

Entretanto, não basta afirmar que há ocorrência. É necessário compreender o que está minimamente implicado no ocorrer.

Se algo ocorre, ocorrer e não ocorrer não podem ser absolutamente idênticos. Há, portanto, uma diferença mínima. Mas uma diferença que não produzisse qualquer incidência, que nada alterasse e não marcasse de nenhum modo o próprio ocorrer, seria indistinguível da ausência de diferença. Seria uma distinção apenas verbal, sem efetividade ontológica.

Uma diferença efetiva é uma diferença que incide.

Incidir não significa ser percebida por uma mente, conhecida por um sujeito ou representada por uma consciência fenomenal. Significa apenas que o ocorrer não permanece absolutamente indiferente à diferença que nele se efetua. Há uma marcação mínima, uma afecção anterior à distinção entre interior e exterior, sujeito e objeto, observador e observado.

Essa afecção não deve ser entendida como sensação. Afetar, aqui, significa fazer diferença no próprio regime em que algo ocorre. Onde nenhuma diferença incide, nada se distingue efetivamente. E onde nada se distingue efetivamente, não há critério ontológico pelo qual ocorrência e não-ocorrência possam ser diferenciadas.

Chamamos Consciência Irredutível a essa incidência mínima.

O termo não designa mente, pensamento, percepção, reflexividade ou conhecimento de si. Não afirma que exista um sujeito primordial observando o Há. Consciência é, neste nível, o nome técnico da não-indiferença pela qual uma ocorrência comparece como diferença efetiva.

Negar essa não-indiferença produz uma autorrefutação performativa. Para sustentar que nenhuma diferença incide, a própria negação precisa ocorrer de maneira determinada, distinguindo-se daquilo que nega e produzindo uma modificação no campo em que comparece. A negação realiza, portanto, a incidência que procura rejeitar.

Não se conclui que toda ocorrência pensa.

Não se conclui que todo real possui interioridade.

Não se conclui que exista uma mente universal.

Conclui-se apenas que uma ocorrência absolutamente indiferente à própria diferença seria ontologicamente indistinguível da não-ocorrência. Por isso, toda ocorrência efetiva implica diferença; toda diferença efetiva implica incidência; e essa incidência mínima recebe o nome de Consciência Irredutível.

A cadeia pode ser expressa assim:

Há ocorrência.
Negá-la é novamente ocorrer.
Ocorrer implica diferença efetiva.
Diferença efetiva implica incidência mínima.
Incidência mínima implica não-indiferença.
Essa não-indiferença constitui a Consciência Irredutível.

A Consciência Irredutível não é acrescentada ao Há como uma entidade ou propriedade posterior. Ela é a explicitação daquilo que já estava implicado no fato de que a ocorrência não pode ser absolutamente indistinguível de sua própria ausência.

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