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Não à Paz

Imperatriz Mor II – Gozo do Vazio


Me surpreendo quando vejo minha lucidez transparecer

nas anatomias responsáveis do cotidiano.


Minha calma externa, minha objetividade,

o bom senso aplicado nas mínimas relações

entre mim e o mundo.


Mas tudo isso é uma máscara para o caos que me habita,

para o ente que clama guerra, luxúria e gozo.


Nada dentro está calmo,

tudo dentro está em perpétua guerra.

Não há em nenhum instante a calmaria.


Dentro, quero gozar como uma criança

que só sabe se aprazer em todos os contatos,

suplicando e birrando por mais, mais e mais.


Dentro, há a Imperatriz Mor da existência,

que absolutamente não quer paz.

Paz é deixar de ter gozo.

Ela quer o estado insandecido de êxtase,

erguido sobre a glória do vazio.


O meu pensar é vício dialético,

sempre a me julgar.

Quando entro nas piras das culpas,

vem a insanidade lembrar:

não posso ser julgada.


Essa insanidade é tão insana

que não rasga dinheiro nem come coco.

Não saio pelada na rua,

nem mato alguém com raiva no rosto.


Mas o peso de Deus

e sua dialética culpável

apodrece quando me calo.

Não que seja fácil,

nem que eu não me perca

em devaneios sobre ser isso ou aquilo,

mas tenho conseguido lembrar:

nada tem existência real.


Esse é o lugar

onde encontro a Imperatriz Mor

e me fundo com ela.

Sabe o que é gozar?

Gozo do vazio,

do êxtase sem fim,

do ser que não é,

mas que é tudo em sua glória.


Onde não há paz, ei de habitar.

A paz humana é quimera deformada.


Sou da paz do caos,

ardendo frenético

no instante do devir.





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