O que é moral? Se verificamos que os paradigmas são abstrações humanas, tudo o que implica moralidade só é válido por convenções de sistemas. Assim, se a magia, em última instância, pretende manipular os sistemas, ela age de fora deles. O verdadeiro magista, aquele que ultrapassou o nível de aprendiz, sabe usar essa artimanha.
O carma só faz sentido para quem está inserido na roda de Samsara; fora dela, não tem poder. O mago que alcança essa magnitude ultrapassou as causas e efeitos pressupostos pela fisicalidade, que, na verdade, é construída pela linguagem.
Isso não significa negação, tampouco embate. O entendimento ocorre de fora, e a manipulação não visa mudar ou melhorar estruturas—ela simplesmente as usa a favor. Questões sobre ética mágica, como o impacto das práticas sobre o livre-arbítrio alheio, tornam-se irrelevantes para quem enxerga além, pois dentro de um sistema não há livre-arbítrio.
Se o sistema é um campo de forças pré-determinado por regras internas, então a noção de liberdade dentro dele é apenas uma ilusão gerada pela própria estrutura. O mago que opera de fora não viola nada; ele apenas compreende o jogo e utiliza suas regras como um artesão molda a matéria.
A chamada "ética mágica" só faz sentido para quem ainda está dentro do tabuleiro, acreditando em culpa, consequência e responsabilidade como absolutas. Do lado de fora, esses conceitos são apenas engrenagens de um mecanismo maior, e manipular não é um ato de transgressão, mas de funcionalidade.
O fora absoluto, no entanto, não está no fora. Não há um outro espaço ou dimensão onde se possa escapar dessas engrenagens. O verdadeiro fora não é um deslocamento, mas uma posição de consciência: sou eu quem estabeleço o que está dentro e o que está fora. Se tudo se sustenta na minha matriz, então o jogo só continua enquanto eu decidir jogá-lo.
Isso dissolve completamente a noção de transgressão, pois não há mais regras externas a serem quebradas—apenas estruturas que existem na medida em que são reconhecidas. O mago não opera contra nada, pois não há sistema absoluto a ser confrontado. Ele simplesmente se move de acordo com sua própria ordem, sem necessidade de justificativa.
A matriz que tudo dissolve e tudo permite não está no mundo, mas em quem o observa. O niilismo não é um fim, mas o espaço onde tudo se torna possível. No fim, não há nada além do que se decide que haja.
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