O presente ensaio visa organizar e apresentar com clareza e rigor o pensamento proposto pelo autor, que parte da indagação sobre a natureza da realidade, da consciência e da percepção. A reflexão inicia-se com uma suspeita radical: de que tudo aquilo que nomeamos — átomos, buracos negros, quarks, galáxias — são, antes de tudo, conceitos. Ou seja, são construções simbólicas elaboradas pela mente humana para tentar apreender o real. A partir daí, emerge uma proposição central: o real é incognoscível, pois só o acessamos por meio de representações.
Essa primeira afirmação já indica uma desconfiança metodológica em relação ao saber científico tradicional. A ciência opera sobre signos, medidas, modelos, estruturas relacionais — nunca sobre o real em si. Ao reconhecer isso, o pensamento se volta à seguinte questão: se tudo que conhecemos é conceito, e conceito é flutuante, adaptável e criativo, o que nos permite inferir ou criar tais conceitos? Surge então o papel da consciência.
Neste ponto, é feita uma distinção fundamental: a percepção é relacional, moldada por sentidos, estruturas cognitivas e linguísticas. A percepção não é o que “é”, mas uma interpretação do que se apresenta. Porém, mesmo sendo relacional, há algo que percebe. Esse "algo" é a consciência. E aqui, faz-se uma afirmação de grande impacto filosófico: a consciência é irredutível. Ou seja, ela não pode ser explicada ou contida inteiramente nas relações perceptivas. A percepção pode mudar, falhar, distorcer — mas há algo que, mesmo assim, percebe que ela mudou, falhou, distorceu. Esse "algo" não é um objeto, nem uma relação — é uma presença.
A partir disso, surge uma segunda proposição: a consciência não está contida na percepção; ela a transcende. E se ela transcende a percepção, então ela atravessa o incognoscível para tocar o real, mesmo que de modo parcial ou fragmentado. O real, nesse caso, não é aquilo que pode ser descrito, mas aquilo que sustenta a própria possibilidade de haver percepção — ainda que o conteúdo percebido seja ilusório ou limitado.
Essa linha de raciocínio ecoa, de forma original, uma atualização do cogito cartesiano. Mas ao contrário de Descartes, que via a consciência como um ponto fixo de certeza ("penso, logo existo"), aqui a consciência é vista como um atravessamento — um elo entre dois domínios: o incognoscível (que é) e o mundo relacional (que se apresenta). Não é uma substância, nem uma estrutura, mas uma tensão. A consciência é, portanto, a única evidência do ser que não pode ser dissolvida em linguagem, percepção, conceito ou relação.
Essa reflexão conduz à noção de meta-imanência: camadas sobrepostas que, para nós, aparecem como distintos domínios, mas que, em si, formam um todo uno. A consciência não é uma parte do mundo, mas uma instância que participa de algo anterior e exterior ao mundo relacional. Dessa forma, ela carrega mais do incognoscível do que do real fenomênico. Ela é o traço daquilo que não se pode dizer, mas que nos constitui.
A implicação final é que toda realidade, conforme a conhecemos, se “oxida” — no sentido de se modificar, se fragmentar, se desgastar — por meio de um conjunto de relações. Mas a consciência, por não ser relacional, permanece. Ela não é estática, mas irredutível. Não é visível, mas evidente. É aquilo que, sem ser conceitual, permite o surgimento de todos os conceitos.
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