Tenho percebido em mim a presença de algo estranho, mas pleno. Há, lá no fundo, um cântico de esplendor que soa quase que perpétuo.
E a todo instante sou lembrada a me voltar para esse centro e ouvir o som do êxtase.
Ao refletir sobre a estrutura da realidade, reconheci que tudo aquilo que conhecemos — galáxias, buracos negros, partículas subatômicas, emoções, ideias — é mediado por conceitos. Tudo é conceito. E os conceitos, por sua natureza, são flutuantes, moldáveis, adaptáveis e criativos. Com isso, vi-me forçado a aceitar um limite: o real, aquilo que está para além de qualquer conceito, é incognoscível.
A partir disso, compreendi que a nossa realidade consiste em uma organização relacional de forças. Tudo o que percebemos emerge dessas relações. Porém, algo em mim percebe. E se há algo que percebe, então há também algo que escapa a essas relações. A percepção pode ser relacional, mas a consciência — aquilo que percebe — não se reduz a elas.
Essa é a chave da minha argumentação: a consciência é irredutível.
Se tudo o que podemos conceituar é representação, linguagem, semiótica — então ainda estamos lidando com mediações. A consciência, por outro lado, não é mediação. Ela é a condição que torna qualquer mediação possível. Vejo-a como aquilo que atravessa o incognoscível e torna viável a experiência do real. Ela não pertence ao domínio da representação; é anterior a ele e o sustenta.
Nesse raciocínio, até mesmo categorias como o tempo se dissolvem: o tempo é uma percepção, um extrato subjetivo. A consciência, porém, não é uma percepção, mas o que possibilita qualquer percepção. Não é o que muda, mas o que testemunha a mudança. Por isso, não posso colocá-la no mesmo plano de emoções como a alegria, ou de processos como o pensamento. Alegria, tristeza, cálculo, cognição — tudo isso são fenômenos. A consciência é o que permite que tais fenômenos sejam experienciados.
Concluo, então, que a consciência tem mais do incognoscível do que daquilo que chamamos realidade. Ela não pode ser plenamente representada, pois qualquer tentativa de fazê-lo já recorre a conceitos — e, como estabelecido, os conceitos não tocam o real em si. A consciência, portanto, é um elo com o que está além da linguagem e da representação.
Se me perguntam se isso é metafísico, respondo: é uma meta-imanência. Não coloco a consciência como algo fora do mundo, mas como aquilo que, estando no mundo, não se deixa capturar por ele. Ela é imanente, mas não relacional. Está aqui, mas escapa. É, ao mesmo tempo, o ponto mais íntimo e mais insondável da experiência.
Dentro dessa lógica, a única ontologia possível se dá no reconhecimento do incognoscível como origem de tudo — inclusive da própria consciência. Mas a consciência não surge como mais um conceito; ela é o que resiste à conceitualização. Por isso, é irredutível.
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