Se meu corpo morrer, que hei de perder?
Se minha alma, essa que hei de criar,
No abismo se aniquilar,
O que hei de perder?
Não tenho medo, a não ser os tolos:
De doer ou de perder.
Mas se até minha alma posso entregar
Sem o mínimo medo do vazio tanto quanto do cheio,
Não há, dentro ou fora das fronteiras do espaço-tempo,
Aquilo que me possa amedrontar.
O que sobra quando nem o medo de perder me resta?
Se tudo continua, indiferente ao meu ser ou ao meu não-ser,
Se o mundo segue, sem que minha ausência o desvie,
Por que haveria de importar?
Se nem o abismo é fim,
Se a aniquilação não pesa mais que a existência,
Se comer ou não comer são gestos vazios de sentido,
O que há para eu segurar, para temer, para desejar?
O medo de perder, dizem, é o que dá forma ao querer.
Mas se até meu querer se dissolve,
Se até meu medo se rende,
O que me resta senão o nada—e ainda assim, o nada continua?
Se minha dimensão é apenas um ondular
Na vastidão de dimensões repletas de seres glutinadores,
Que existem sem propósito, apenas engolindo variações,
E se eu atravesso todas elas sem glutinar,
Será que preciso de medo ou de morte para assim me projetar?
Se minha travessia é pura, sem aderir, sem absorver, sem reter,
Se deslizo entre as marés de mundos que se engolem sem fim,
Por que precisaria de medo ou de morte para me projetar?
Se os glutinadores são apenas ecos de si mesmos,
Engolfando-se sem intenção, sem direção, sem saber,
Mas eu passo, sem me prender, sem ser tragada,
O que sou então, senão o próprio atravessar?
O medo pertence ao que se fixa, ao que teme se dissolver.
A morte pertence ao que acredita em fim.
Mas se sou fluxo sem apego, sem âncora,
Onde há espaço para medo, para morte, para perda?
E assim, não há nem dentro nem fora, só eu.
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